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11 de setembro: 10 mil novos casos de câncer em 1 ano

ResumoO World Trade Center Health Program certificou 10.393 novos casos de câncer em doze meses, segundo boletim oficial. Pela primeira vez, sobreviventes civis superam socorristas no total de diagnósticos ligados à exposição à poeira tóxica do Ground Zero após os ataques de 11 de setembro de 2001.

Boletim do World Trade Center Health Program aponta 10.393 novos casos de câncer certificados em doze meses. Pela primeira vez, sobreviventes civis superam socorristas no total de diagnósticos ligados à poeira do Ground Zero.

Wesley Tobias
Wesley Tobias Repórter de Segurança Pública · 11 de setembro de 2026 · 5 min de leitura
11 de setembro: 10 mil novos casos de câncer em 1 ano

Quase 3 mil pessoas morreram na manhã de 11 de setembro de 2001. Vinte e cinco anos depois, o número de sobreviventes e socorristas com câncer atribuído ao atentado é dezenove vezes maior: 57.044 certificações, segundo boletim do World Trade Center Health Program divulgado em agosto de 2026, com dados até 30 de junho. Em junho de 2025, eram 48,5 mil.

O ritmo atual é o dado mais direto do boletim: de 14.711 condições certificadas no último ano, 10.393 foram cânceres. A segunda colocada, o refluxo gastroesofágico, somou 1.553 casos, e a rinossinusite crônica, 1.410.

Certificação não é o mesmo que diagnóstico. Significa que um médico do programa concluiu que a exposição ao 11 de setembro foi provavelmente um fator relevante para causar ou agravar a doença. A decisão garante tratamento gratuito, incluindo quimioterapia e medicamentos de alto custo.

Quem está por trás dos novos diagnósticos

Durante anos, os socorristas concentraram a maior parte dos diagnósticos. Esse desenho mudou: as certificações somam 28.913 entre sobreviventes civis e 28.131 entre quem atuou no resgate e na limpeza. É a primeira vez que moradores, estudantes e trabalhadores da região aparecem à frente.

A inversão tem duas explicações que caminham juntas. O programa segue recebendo novos inscritos, 2.096 no primeiro trimestre de 2026 e 2.180 no segundo, e a categoria de sobreviventes é hoje a principal fonte de novas inscrições. Ao mesmo tempo, os tumores associados à exposição têm períodos de latência longos: só agora parte dessa população chega à idade e ao tempo de incubação em que a doença se manifesta.

Por que a poeira do Ground Zero provoca tumores

Bombeiros, policiais, voluntários, moradores da vizinhança e trabalhadores do entorno respiraram a mesma nuvem liberada pelo colapso das torres, uma mistura de cimento pulverizado, asbestos, fumaça e combustível queimado que colocou centenas de substâncias químicas em circulação ao mesmo tempo.

O oncologista Stephen Stefani, da Oncoclínicas e da Americas Health Foundation, explica que o efeito não aparece de imediato porque atua sobre um processo contínuo do organismo.

"A divisão celular acontece milhões de vezes ao longo da vida e sempre produz erros. Um organismo saudável identifica e descarta essas falhas antes que elas se acumulem. A exposição a agentes como asbestos, benzeno, sílica e chumbo desarma justamente esse sistema de correção: as mutações passam a se multiplicar sem freio, e o tumor encontra espaço para se formar", diz.

Experimentos com camundongos expostos ao pó do World Trade Center reforçaram a hipótese. Os animais apresentaram inflamação mais intensa e ativação de genes ligados à multiplicação celular descontrolada.

Os tumores mais certificados e os raros

Entre os inscritos vivos no programa, a lista é encabeçada por tumores de pele: 18,38 mil certificações de câncer de pele não melanoma, 13,17 mil de próstata, 4,83 mil de mama feminina, 3,86 mil de melanoma, 2,56 mil de linfoma, 2,46 mil de tireoide, 2,06 mil de rim, 1,97 mil de pulmão e brônquios, 1,68 mil de bexiga e 1,57 mil de leucemia.

O programa mantém ainda uma contagem separada para cânceres raros: 591 casos de tumores neuroendócrinos, 324 de pâncreas, 312 de testículo, 163 de cérebro, 125 de tecido conjuntivo, 118 de mama masculina e 82 de timo.

"O mesotelioma, associado ao asbestos, e tumores incomuns de tecidos moles e do timo compõem o quadro mais inesperado. A presença deles indica que a exposição maciça a substâncias mutagênicas não se restringiu ao pulmão, alcançou tecidos que raramente entram nesse tipo de estatística", afirma o oncologista.

Comparações entre expostos e não expostos ajudam a dimensionar o peso da nuvem tóxica. Uma meta-análise publicada em 2022 no Journal of the National Cancer Institute, com mais de 69 mil socorristas e voluntários, encontrou 19% mais casos de câncer de próstata e 81% mais casos de câncer de tireoide nesse grupo, além de aumento em melanoma e leucemias. Outro estudo, publicado no JNCI Cancer Spectrum em 2020, comparou esses profissionais com moradores da mesma região sem contato com a poeira: a chance de desenvolver leucemia foi 41% maior entre quem esteve no Ground Zero.

Como funciona o programa que paga o tratamento

O World Trade Center Health Program é um programa federal de saúde bancado pelo governo americano, administrado pelo Instituto Nacional de Segurança e Saúde Ocupacional (NIOSH), órgão ligado aos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC). Nasceu do James Zadroga 9/11 Health and Compensation Act, sancionado em 2 de janeiro de 2011 e batizado em homenagem a um policial de Nova York que trabalhou nos escombros e morreu em 2006, aos 34 anos, de doença respiratória.

O acesso depende da certificação: o membro passa por avaliação médica, e um profissional do programa determina se a exposição ao 11 de setembro foi provavelmente um fator relevante para causar ou agravar aquela doença. A partir daí, monitoramento e tratamento saem de graça, em centros clínicos especializados na região metropolitana de Nova York e, para quem se mudou, por uma rede de prestadores espalhada pelo país. Hoje há membros nos 50 estados americanos.

O programa cobre dois grupos. De um lado, os socorristas: bombeiros, policiais, equipes de limpeza e voluntários que atuaram no Ground Zero, além dos que trabalharam nos sítios do Pentágono e de Shanksville, na Pensilvânia, que somam 1.481 inscritos. De outro, os chamados sobreviventes: quem morava, trabalhava ou estudava na área atingida pela nuvem tóxica.

A mesma lei reabriu o September 11th Victim Compensation Fund, que paga indenizações. O programa de saúde não distribui dinheiro, e sim tratamento. Além do cuidado individual, financia pesquisa: boa parte do que se sabe hoje sobre o efeito da poeira do World Trade Center no organismo saiu de estudos custeados por ele.

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