Nepal cobra ricos por custos da crise climática
Nepal projeta ao menos US$ 5 bilhões em reconstrução após enchentes e cobra países ricos por custos da crise climática. Emissões nepalesas são 0,1% do total global.
O Nepal começou a reconstruir as rotas comerciais destruídas pelas enchentes catastróficas. Uma nova ponte sobre o rio Tadi, chamada pelo Exército nepalês de "ponte da esperança", é um dos primeiros sinais de recuperação. O país, porém, enfrenta uma crise econômica que deve custar pelo menos US$ 5 bilhões apenas em despesas de reconstrução, segundo autoridades do governo.
O valor não inclui os impactos indiretos da perda de infraestruturas essenciais para o transporte de pessoas e mercadorias. "Essa enchente repentina não é um desastre de um único setor", disse Nischal Dhungel, pesquisador do Nepal Institute for Policy Research. "Seus efeitos atingem fazendas, usinas de energia, corredores comerciais, turismo, empresas e seguros, conectando as perdas das famílias à recuperação da economia nacional."
Estados Unidos, China e Índia já prometeram assistência humanitária e financeira. O Exército nepalês publicou um vídeo da nova ponte no X com a mensagem: "O desastre destruiu, estamos reconstruindo a ponte da esperança".
Por que o Nepal cobra países ricos
Parte do apelo por mais ajuda vem da preocupação de que enchentes extremas se tornem mais frequentes com o derretimento das geleiras do Himalaia. Cientistas acreditam que o episódio recente foi provocado pelo colapso de uma geleira, que desencadeou um deslizamento de terra. Especialistas ainda estudam o papel das mudanças climáticas no desastre.
Os líderes nepaleses atribuem parte da responsabilidade pelo desastre aos países maiores, que respondem por uma parcela muito superior à do Nepal, de apenas 0,1% das emissões globais. O país já solicitou US$ 20 milhões em compensação a um fundo das Nações Unidas criado para ajudar países em desenvolvimento atingidos por perdas relacionadas às mudanças climáticas.
"A contribuição do Nepal é extremamente baixa, mas estamos entre os países que arcam com as consequências dos problemas criados por essas emissões", disse o ministro das Relações Exteriores, Shisir Khanal, à imprensa nepalesa. "Nesse sentido, o Nepal precisa se manter firme e transformar essa questão em uma questão de justiça em nível internacional."
Impactos econômicos e o risco de novas enchentes
Embora os danos estejam concentrados em alguns distritos de vales no centro do Nepal, a incerteza sobre a reconstrução desses corredores econômicos pode prejudicar o crescimento do país por anos. Se o aquecimento global continuar no ritmo atual, o Nepal poderá perder cerca de 4% de seu PIB até 2050, segundo análise do Banco Mundial.
"Existe agora uma forte percepção entre os nepaleses de que o país está pagando o preço de uma crise climática para a qual contribuiu muito pouco", disse Soniya Rijal, pesquisadora de pós-doutorado da Universidade de Sydney.
A possibilidade de novas enchentes complica a reconstrução ao aumentar custos de adaptação, financiamento e seguros para novas infraestruturas na área de risco. "Essa reconstrução envolve uma pressão paradoxal entre ser rápida e econômica e ser lenta o suficiente para criar resiliência", disse Rijal.
Sudip Bhaju, diretor do Nepal Economic Forum, afirmou que padrões mais rigorosos de infraestrutura provavelmente tornarão futuras obras mais caras. Os riscos climáticos podem dobrar o custo da reconstrução em relação ao valor do que foi perdido. Alguns projetos, como usinas hidrelétricas, podem ser abandonados, prejudicando os planos de diversificar a economia por meio da exportação de energia para Índia e Bangladesh.
"Estamos esperando outra bomba-relógio, certo? Então, a maior questão aqui é: como vamos construir?", disse.
Em Katmandu, itens básicos como frutas e verduras ficaram entre 5% e 8% mais caros, segundo Bhaju. O preço do gás subiu até 36% fora dos canais oficiais de distribuição, quando disponível. "Se o governo não garantir o fornecimento adequado de gás para hotéis e restaurantes, isso certamente vai criar uma espécie de mercado negro", disse. "Isso terá um efeito cascata sobre tudo, desde o transporte até os produtos do dia a dia."
Para muitas empresas, as enchentes ameaçam agravar problemas deixados por desastres anteriores. Após o terremoto de 2015 que matou 9 mil pessoas e causou US$ 10 bilhões em danos, uma importante passagem de fronteira com a China foi fechada, e grande parte do comércio foi transferida para Rasuwaghadi, uma das áreas mais atingidas pelas enchentes recentes. A destruição do mês passado marcou a segunda vez em menos de dois anos que Rasuwaghadi foi atingida por enchentes relacionadas às mudanças climáticas.
Saloni Sethia, diretora-gerente da Vie Tec, empresa de sistemas prediais e materiais de construção em Katmandu, disse que seu negócio foi afetado pelas duas enchentes. Com as rotas para a China prejudicadas, contratar motoristas pela passagem de Korala custa quatro vezes mais. A substituição pelo transporte marítimo a partir de Guangzhou acrescenta três semanas ao prazo de entrega.
"Essa incerteza é um custo por si só", escreveu Sethia à CNN. "Alguém paga por essas três semanas adicionais. Normalmente, é a margem do importador ou o preço pago pelo consumidor, ou ambos."
A interrupção do comércio ocorre poucas semanas antes do Dashain, festival hindu de 15 dias que impulsiona consumo e turismo. No ano passado, a atividade durante o feriado foi prejudicada por protestos estudantis. O número de visitantes estrangeiros pode cair, afetando um setor que responde por cerca de 7% do PIB do Nepal e emprega mais de 1 milhão de pessoas. Choques anteriores, como o terremoto de 2015 e os protestos da Geração Z em 2025, foram seguidos por quedas de 26% e 18% nos visitantes, segundo o Nepal Economic Forum.
"É assim que um problema em um corredor se transforma em um problema nacional", escreveu Sethia. "Empresas que nunca estiveram perto da água acabam arcando com parte das perdas, e não há uma linha para isso em nenhuma estimativa de reconstrução."