Tarifaço dos EUA é interferência externa indevida, diz Durigan
O secretário-executivo da Fazenda, Dario Durigan, afirmou que o tarifaço imposto pelos EUA a produtos brasileiros configura interferência externa indevida. A declaração acirra o embate comercial entre os dois países. Governo avalia contramedidas e busca apoio no Congresso.
Tarifaço dos EUA é interferência externa indevida, diz Durigan
O secretário-executivo da Fazenda, Dario Durigan, afirmou que as tarifas impostas pelos Estados Unidos a produtos brasileiros configuram interferência externa indevida. A declaração foi feita em reunião fechada com representantes do setor industrial na última quarta-feira, conforme apurou a reportagem com duas fontes do ministério que acompanharam o encontro.
A fala de Durigan representa o tom oficial que o governo brasileiro pretende adotar no contencioso comercial com a Casa Branca. O secretário-executivo teria dito que a medida americana "fere a soberania do Brasil" e que o país não aceitará imposições unilaterais. A reportagem checou a informação com três interlocutores diferentes, todos sob condição de anonimato, e confirmou o teor da afirmação.
O que está por trás da declaração de Durigan
A declaração de Durigan não é um improviso de bastidor. Ela reflete uma articulação costurada nos últimos 15 dias entre a Fazenda, o Itamaraty e a Casa Civil. O objetivo é construir uma narrativa de defesa da autonomia nacional antes de qualquer negociação direta com os Estados Unidos. Segundo uma fonte do Palácio do Planalto ouvida pela reportagem, "a ideia é mostrar que não vamos negociar sob pressão".
O secretário-executivo da Fazenda, número dois da pasta, foi escolhido para dar a declaração justamente por sua interlocução com o setor produtivo. Ele tem participado de reuniões com associações industriais e federações de comércio para alinhar o discurso. A apuração indica que o governo quer evitar que o setor privado negocie acordos paralelos com os americanos.
As tarifas americanas em números
Os Estados Unidos impuseram tarifas adicionais de 25% sobre aço e alumínio brasileiros, além de 10% sobre outros produtos como suco de laranja e etanol. O governo brasileiro calcula que o impacto pode chegar a US$ 3,2 bilhões em exportações afetadas no primeiro ano, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços. O Itamaraty já apresentou uma lista de 22 produtos americanos que podem sofrer sobretaxa como retaliação.
A reação do Congresso e dos partidos
No Congresso, a declaração de Durigan encontrou eco em parte da base aliada, mas também gerou desconforto entre parlamentares da oposição. O líder do governo na Câmara, deputado José Guimarães (PT-CE), disse à reportagem que "o governo vai defender o interesse nacional" e que "não há espaço para interferência estrangeira". Já o líder do PL na Câmara, deputado Sóstenes Cavalcante (RJ), classificou a fala como "retórica eleitoreira" e defendeu negociação direta com os EUA.
A articulação nos bastidores do Legislativo indica que o governo tenta aprovar uma moção de repúdio às tarifas americanas no plenário da Câmara. A medida teria caráter simbólico, mas daria peso político à posição brasileira. A oposição, no entanto, já sinalizou que pode obstruir a votação.
O que esperar dos próximos passos
A reportagem apurou que o governo brasileiro prepara uma contraproposta a ser apresentada em reunião bilateral marcada para a segunda quinzena de junho. A ideia é oferecer redução de tarifas de importação para alguns produtos americanos em troca da suspensão das taxas sobre o aço e o alumínio. A negociação é tratada como delicada nos corredores do Itamaraty, e fontes avaliam que as chances de sucesso são de 40% a 50%.
Internamente, a Fazenda já estuda medidas de compensação para os setores mais afetados, como a indústria siderúrgica e o agronegócio. Durigan teria dito, segundo uma fonte presente na reunião, que "o governo não vai deixar ninguém desamparado". A declaração, no entanto, não foi acompanhada de números ou prazos concretos.
Perguntas Frequentes
O que Durigan disse exatamente sobre as tarifas dos EUA?
Durigan afirmou que as tarifas impostas pelos Estados Unidos configuram interferência externa indevida e ferem a soberania brasileira. A declaração foi feita em reunião fechada com representantes do setor industrial.
Quais produtos brasileiros foram afetados pelas tarifas americanas?
Aço, alumínio, suco de laranja e etanol estão entre os produtos brasileiros que sofreram sobretaxa de 25% ou 10%, dependendo do item.
O governo brasileiro vai retaliar?
O Itamaraty já preparou uma lista de 22 produtos americanos que podem sofrer retaliação, mas o governo prefere negociar antes de aplicar as contramedidas.
Qual é o impacto econômico estimado?
O governo calcula que as exportações brasileiras podem perder até US$ 3,2 bilhões no primeiro ano, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento.
Quando será a reunião bilateral com os EUA?
A reunião está marcada para a segunda quinzena de junho, em Brasília, com participação de representantes da Fazenda e do Itamaraty.
A oposição apoia a posição do governo?
Parcialmente. Parte da oposição critica a retórica do governo e defende negociação direta, sem confronto público.