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Restrições chinesas a terras raras ameaçam indústria global de US$ 6,5 trilhões

ResumoAs restrições chinesas à exportação de terras raras, em vigor desde 2024, reduziram o fluxo global desses minerais críticos. Pequim aperta o controle sobre insumos essenciais para transição energética e defesa, ameaçando uma indústria global avaliada em US$ 6,5 trilhões. Washington, Bruxelas e Brasília acenderam alerta sobre a dependência estratégica do fornecimento chinês.

Pequim aperta o cerco sobre minerais críticos para a transição energética e defesa. As novas regras de exportação, em vigor desde 2024, já reduziram o fluxo de terras raras e acenderam alerta em Washington, Bruxelas e Brasília. O que está em jogo é o controle de uma indústria ava

Otávio Mancini
Otávio Mancini Repórter de Política e Bastidores · 17 de julho de 2026 · 5 min de leitura
Restrições chinesas a terras raras ameaçam indústria global de US$ 6,5 trilhões

Restrições chinesas a terras raras ameaçam indústria global em US$ 6,5 tri

O governo chinês apertou o controle sobre a exportação de terras raras, minerais essenciais para a produção de ímãs permanentes, baterias de veículos elétricos e sistemas de defesa. As novas regras, em vigor desde dezembro de 2024, exigem licenças específicas para a venda de tecnologias de separação e processamento, afetando diretamente uma cadeia global avaliada em US$ 6,5 trilhões. A medida acendeu alertas em Washington, Bruxelas e Brasília.

A China responde por 60% da produção global de terras raras e por 90% do processamento, segundo o Serviço Geológico dos EUA (USGS). Isso significa que, mesmo que um país como o Brasil ou a Austrália extraia o minério, ele depende da China para transformá-lo em óxidos e metais utilizáveis pela indústria. As restrições chinesas miram justamente esse gargalo.

Por que as terras raras são vitais para a economia global

As terras raras são um grupo de 17 elementos químicos, entre eles neodímio, disprósio e térbio, que, combinados, permitem criar ímãs até 10 vezes mais potentes que os convencionais. Eles estão em carros elétricos, turbinas eólicas, discos rígidos, smartphones e sistemas de guiamento de mísseis. Sem eles, a transição energética e a indústria de defesa moderna param.

Segundo a Agência Internacional de Energia (IEA), a demanda por terras raras deve crescer 400% até 2030, impulsionada pela eletrificação da frota global. Cada veículo elétrico usa cerca de 2 kg de ímãs de neodímio. Uma turbina eólica offshore, até 600 kg. O que está em jogo é a viabilidade de metas climáticas e a autonomia estratégica de países.

O que mudou nas regras de exportação da China

Em dezembro de 2024, Pequim incluiu as tecnologias de separação e processamento de terras raras na lista de itens de exportação controlada, que já abrangia o minério bruto. A novidade é que agora qualquer empresa estrangeira que queira comprar know-how ou equipamento para refinar terras raras precisa de uma licença do Ministério do Comércio chinês. Na prática, a China não está parando de vender o produto final, está impedindo que outros países aprendam a fazer o processo sozinhos.

A medida veio depois de um período de tensão comercial com os EUA, que haviam imposto tarifas sobre chips e veículos chineses. Para analistas, a decisão é uma retaliação calculada: a China usa seu monopólio de processamento como arma de negociação.

Impacto imediato nos setores de tecnologia e defesa

As restrições já provocaram efeitos em cascata. O preço do óxido de neodímio subiu 35% entre janeiro e março de 2025, segundo dados da consultoria Adamas Intelligence. Montadoras como Tesla e Volkswagen relataram dificuldades para garantir contratos de longo prazo com fornecedores chineses de ímãs. No setor de defesa, o Pentágono acelerou a estocagem de terras raras para a produção de mísseis e sistemas de radar.

A União Europeia, que importa 98% das terras raras da China, lançou em março de 2025 um plano de emergência para diversificar fornecedores, com investimento de € 1,2 bilhão em minas na Groenlândia e no Canadá. O Brasil, que tem a terceira maior reserva do mundo, segundo o USGS, viu o governo federal anunciar um programa de incentivo à mineração e processamento local.

O papel do Brasil no tabuleiro global

O Brasil possui reservas estimadas em 21 milhões de toneladas de terras raras, atrás apenas da China (44 milhões) e do Vietnã (22 milhões). No entanto, a produção nacional é quase nula: o país extrai menos de 1% do total global. A dependência do processamento chinês é total.

Em fevereiro de 2025, o Ministério de Minas e Energia anunciou a criação de um grupo de trabalho para viabilizar a primeira refinaria de terras raras do país, com previsão de operação em 2028. O projeto depende de investimento estrangeiro e de parcerias com empresas australianas e canadenses. Para especialistas, o Brasil tem potencial para se tornar um player relevante, mas falta infraestrutura e regulação clara.

As rotas de fuga: reciclagem e substituição

Diante do aperto chinês, governos e empresas buscam alternativas. A reciclagem de ímãs de terras raras a partir de discos rígidos e motores elétricos ganhou tração. A startup americana Noveon Magnetics já opera uma planta que recupera 95% dos elementos de ímãs usados, com custo 30% menor que a mineração.

Outra frente é a substituição química. Pesquisadores do MIT desenvolveram um ímã sem terras raras, à base de manganês e alumínio, que alcança 80% da potência dos ímãs de neodímio. A tecnologia ainda não é comercial, mas pode reduzir a dependência em médio prazo.

O que esperar para os próximos anos

A crise das terras raras não é iminente, mas estrutural. A China não vai cortar totalmente o fornecimento, isso prejudicaria sua própria indústria, que é a maior consumidora mundial. O movimento é de controle e barganha. Países como EUA, Austrália e Brasil correm para construir capacidade própria de processamento, mas isso leva de 5 a 10 anos.

Enquanto isso, a volatilidade de preços e a incerteza regulatória devem persistir. Para o Brasil, a janela de oportunidade está aberta, mas exige ação coordenada entre governo, setor privado e universidades. Quem depender exclusivamente da China para terras raras processadas vai pagar mais caro e correr riscos geopolíticos.

Perguntas Frequentes

O que são terras raras?

Terras raras são 17 elementos químicos essenciais para ímãs de alto desempenho, baterias e equipamentos de defesa. Apesar do nome, não são raras na crosta terrestre, mas são difíceis de extrair e processar.

Por que a China domina a produção de terras raras?

A China tem as maiores reservas do mundo e, desde os anos 1980, investiu pesado em tecnologia de separação e refino. Hoje, responde por 60% da extração e 90% do processamento global.

As restrições chinesas afetam o Brasil?

Sim, indiretamente. O Brasil importa componentes eletrônicos e veículos que usam terras raras. A alta de preços pode encarecer esses produtos. Por outro lado, o país pode se beneficiar como novo fornecedor de minério.

Quanto tempo leva para construir uma refinaria de terras raras?

Entre 5 e 10 anos, incluindo estudos de viabilidade, licenciamento ambiental e construção. O Brasil anunciou planos para 2028, mas o prazo é otimista.

Existe alternativa às terras raras chinesas?

Sim. Reciclagem de ímãs e desenvolvimento de ligas sem terras raras são as principais apostas. Ambas ainda são incipientes, mas avançam rápido.

Como a China usa minerais críticos como arma geopolítica O potencial do Brasil na cadeia global de terras raras Reciclagem de ímãs: a nova fronteira dos minerais críticos

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