Como El Mayo foi de chefão do Cartel de Sinaloa à prisão perpétua nos EUA
Ismael "El Mayo" Zambada, cofundador do Cartel de Sinaloa, foi condenado à prisão perpétua nos EUA. O acordo de culpa evitou a pena de morte e determinou o confisco de US$ 15 bilhões. Entenda a trajetória do chefão e o impacto da sentença no crime organizado.
O chefão do narcotráfico mexicano Ismael "El Mayo" Zambada foi condenado à prisão perpétua nos Estados Unidos nesta segunda-feira (20). O julgamento encerra um dos processos mais importantes contra cartéis desde a condenação de Joaquín "El Chapo" Guzmán. O cofundador do Cartel de Sinaloa evitou a pena de morte após se declarar culpado no ano passado por comandar uma organização criminosa contínua e admitir o tráfico de milhões de quilos de cocaína ao longo de décadas.
Como parte do acordo com a Justiça, o tribunal determinou o confisco de US$ 15 bilhões em lucros obtidos com o tráfico de drogas, informou o Departamento de Justiça dos EUA. "A condenação de El Mayo é histórica e reflete o compromisso do Departamento de Justiça com a eliminação total dos cartéis e das organizações criminosas transnacionais que ameaçam vidas americanas", afirmou o procurador-geral adjunto dos EUA, A. Tysen Duva.
A trajetória de El Mayo: do campo ao topo do crime
Nascido em Sinaloa, Zambada trabalhou como agricultor na juventude. Na década de 1980, começou a colaborar com o Cartel de Guadalajara e, posteriormente, com o Cartel de Juárez, então liderado por Armando Carrillo Fuentes, conhecido como "El Señor de los Cielos" ("O Senhor dos Céus"), apelido recebido por utilizar uma grande frota de pequenos aviões para transportar drogas.
Após a morte de Carrillo Fuentes, El Mayo criou sua própria organização criminosa, o Cartel de Sinaloa, que liderou durante anos ao lado de El Chapo. Também conhecido como Cartel do Pacífico, o grupo ampliou a produção e o envio de drogas para os Estados Unidos, incluindo heroína, maconha, metanfetamina e, mais recentemente, fentanil, além de administrar o tráfico de cocaína proveniente do sul do continente.
O Departamento do Tesouro dos EUA também o vinculou a um esquema de lavagem de dinheiro envolvendo empresas e supostos contratos públicos no México, outro fator que contribuiu para que o Cartel de Sinaloa fosse considerado uma das maiores organizações criminosas do mundo.
A queda: prisão e extradição
À medida que El Mayo ampliava seu poder, o que fez com que entrasse na mira dos Estados Unidos, que chegaram a oferecer uma recompensa de US$ 15 milhões por sua captura, vários parentes próximos foram presos e extraditados para os EUA. Um deles foi seu filho Vicente "El Vicentillo" Zambada Niebla, preso no México em 2009, extraditado e processado no estado de Illinois. Ele se declarou culpado por tráfico de drogas em 2013 e, em 2019, foi condenado a 15 anos de prisão.
Muitos dos investigados colaboraram com as autoridades americanas em troca de redução de pena, o que ajudou na condenação de El Chapo, também sentenciado à prisão perpétua em 2019. Após uma intensa disputa interna, que incluiu uma tentativa de assassinato contra ele, El Mayo permaneceu como líder do Cartel de Sinaloa ao lado dos filhos de El Chapo Guzmán, conhecidos como "Los Chapitos".
Segundo o centro de estudos InSight Crime, a aliança entre essas facções foi uma das principais razões para que o Cartel de Sinaloa se consolidasse como uma das organizações criminosas mais poderosas da região. No entanto, essa união acabou se deteriorando e deu lugar a uma guerra interna constante, que contribuiu, em parte, para a prisão de El Mayo nos Estados Unidos.
Segundo as autoridades americanas, El Mayo e Joaquín Guzmán López, um dos filhos de El Chapo, foram presos em El Paso, no Texas, em 25 de julho de 2024, após chegarem em um avião particular vindo do México. Posteriormente, El Mayo afirmou que foi atraído para o voo sob falsos pretextos. A forma como ocorreu a prisão tornou-se um ponto de atrito entre os governos do México e dos Estados Unidos.
O acordo e a sentença
Antes de conhecer sua sentença, Zambada falou ao tribunal, assumindo a responsabilidade por seus crimes. Pediu desculpas às inúmeras pessoas e famílias prejudicadas por suas ações e disse que não se declarou culpado para esconder o que fez, mas porque sabia que estava errado. Ele também fez um apelo aos jovens para que não seguissem seu caminho: "Escolham um caminho diferente. Não há futuro na violência. Ela só leva à prisão e à morte." E acrescentou: "A violência precisa acabar no México e em outros lugares. Vidas demais estão sendo perdidas. Ninguém vence."
Zambada já indicou que aceitará a sentença imposta pela Justiça americana, mas pediu para não ser enviado a um presídio de segurança máxima e solicitou que seus problemas de saúde fossem levados em consideração. Nesta segunda-feira, a juíza tornou públicos registros médicos antes mantidos sob sigilo, que mostram que Zambada apresenta declínio das capacidades cognitivas e outras condições médicas potencialmente progressivas. Embora a promotoria tenha afirmado que ele poderá receber atendimento médico no sistema penitenciário federal, a magistrada determinou que o Departamento Federal de Prisões considere cuidadosamente seu estado de saúde ao decidir onde ele cumprirá a pena.
O que muda no crime organizado?
Como diversos especialistas disseram à CNN, quando um líder do narcotráfico cai, normalmente há outros prontos para assumir seu lugar. Assim, pelo menos por enquanto, a organização criminosa permanece ativa. O InSight Crime avalia que outro filho de El Mayo, Ismael "El Mayito Flaco" Zambada Sicairos, que ainda não foi preso, pode se tornar seu sucessor.
Enquanto isso, a disputa pelo comando continua provocando violência em Sinaloa, com confrontos frequentes entre as duas principais facções rivais: Los Chapitos e Los Mayos. Entre setembro de 2024 e maio deste ano, Sinaloa registrou 2.829 homicídios dolosos, segundo estatísticas oficiais. Organizações especializadas em crime organizado estimam que grande parte dessas mortes esteja relacionada ao conflito entre os dois grupos e que milhares de pessoas também estejam desaparecidas.
Dois integrantes dos Chapitos, Iván Archivaldo e Jesús Alfredo Guzmán Salazar, continuam foragidos. O governo dos Estados Unidos oferece recompensas milionárias por informações que levem à captura deles. Um relatório da organização International Crisis Group afirma que, além de Los Chapitos e Los Mayos, existem outros dois blocos dentro do Cartel de Sinaloa: um liderado por Aureliano "El Guano" Guzmán, irmão de El Chapo, e outro comandado por Fausto Isidro Meza Flores, conhecido como "El Chapo Isidro".
"O cenário do crime organizado em Sinaloa é altamente fragmentado", disse à CNN David Mora, analista do International Crisis Group e autor do relatório. Segundo ele, essas quatro facções estabelecem alianças com cerca de 20 células criminosas para controlar diferentes mercados ilegais, como tráfico de drogas, exploração de máquinas caça-níqueis, contrabando de bebidas alcoólicas e cigarros e extorsão de comerciantes. Nesse contexto, Mora afirmou ser improvável que a condenação de El Mayo provoque mudanças significativas na dinâmica do crime em Sinaloa. "Agora, se ele se declarou culpado e foi condenado à prisão perpétua, isso terá algum impacto na produção e no tráfico de fentanil? Definitivamente, não", concluiu.
Perguntas Frequentes
Quem é Ismael "El Mayo" Zambada?
Ismael "El Mayo" Zambada é o cofundador do Cartel de Sinaloa, uma das organizações criminosas mais poderosas do mundo. Ele foi condenado à prisão perpétua nos EUA por tráfico de drogas e comando de organização criminosa.
Como El Mayo foi preso?
El Mayo e Joaquín Guzmán López foram presos em El Paso, no Texas, em 25 de julho de 2024, após chegarem em um avião particular vindo do México. Ele afirmou que foi atraído para o voo sob falsos pretextos.
Qual foi o acordo de El Mayo com a Justiça?
Zambada se declarou culpado por comandar organização criminosa contínua e admitiu ter traficado milhões de quilos de cocaína. O acordo evitou a pena de morte e determinou o confisco de US$ 15 bilhões em lucros do tráfico.
Quem assume o Cartel de Sinaloa após a prisão de El Mayo?
O InSight Crime avalia que seu filho Ismael "El Mayito Flaco" Zambada Sicairos pode se tornar sucessor. A disputa entre as facções Los Chapitos e Los Mayos continua provocando violência em Sinaloa.
Qual o impacto da condenação no tráfico de fentanil?
Segundo analistas, a condenação de El Mayo não deve provocar mudanças significativas na produção e tráfico de fentanil, já que o crime organizado em Sinaloa permanece altamente fragmentado.