Análise: Por que os EUA não tratam a Nicarágua como tratam Cuba e Venezuela
Após a captura do ditador da Venezuela e o aumento da pressão sobre Cuba, os EUA mantêm uma abordagem cautelosa em relação à Nicarágua. Especialistas explicam os motivos estratégicos por trás dessa diferença de tratamento, que envolvem recursos naturais, sucessão de poder e risco
Análise: Por que os EUA não tratam a Nicarágua como tratam Cuba e Venezuela
Após os EUA capturarem o ditador da Venezuela em janeiro e aumentarem a pressão econômica sobre Cuba nos meses seguintes, muitos se perguntaram se o próximo alvo da Casa Branca seria a Nicarágua, outro país latino-americano com um líder autocrático, que nesta semana descartou a possibilidade de novas eleições. No entanto, Washington pouco fez para sinalizar que tomará medidas iminentes na Nicarágua, enquanto os copresidentes do país - Daniel Ortega e sua esposa, Rosario Murillo - têm mantido um perfil discreto e evitado provocar o governo Trump.
Os EUA não tratam a Nicarágua como tratam Cuba e Venezuela por três razões principais: a Nicarágua não possui recursos naturais comparáveis aos da Venezuela; o regime é controlado por uma família sem sucessor claro; e Washington teme que ações diretas provoquem ondas migratórias ou repressão interna, preferindo uma estratégia de pressão gradual.
Diferenças estratégicas entre Nicarágua, Cuba e Venezuela
Para entender por que os EUA adotam posturas distintas, é preciso analisar os fatores que diferenciam cada regime. O professor Kai Thaler, do Departamento de Estudos Globais da Universidade da Califórnia, Santa Bárbara, resume: "Para Marco Rubio, Cuba importa muito mais do que a Nicarágua. Além disso, a Nicarágua não possui os recursos naturais da Venezuela".
Outra diferença fundamental, segundo Thaler, é que a Nicarágua é governada por uma família e não tem um sucessor claro como Delcy Rodríguez, da Venezuela, que assumiu a liderança do país após a captura do ditador Nicolás Maduro pelos EUA. "Todas as alternativas de liderança foram eliminadas por Ortega e Murillo", afirmou.
A abordagem cautelosa de Washington
Com a Nicarágua, os Estados Unidos têm uma abordagem diferente da aplicada a Caracas e Havana, de acordo com o cientista político nicaraguense Manuel Orozco, diretor do Programa de Migração, Remessas e Desenvolvimento do Diálogo Interamericano. O analista afirmou que a Casa Branca quer evitar ações que possam levar a ondas migratórias ou repressão e, em vez disso, aposta em mudanças graduais sem intervenção direta.
"Uma interpretação é que a inércia política na ditadura de Murillo e Ortega irá gerar conflitos internos, uma desaceleração econômica, um possível protesto social onde (os EUA) podem exercer pressão. Mas não o contrário. Se intervir neste momento, não se sabe qual seria o efeito sobre uma transição política", disse Orozco.
Ele enfatizou que o governo sandinista, no poder desde 2007, não enfrenta turbulências econômicas ou protestos de rua, então, se os EUA intervirem, "estariam forçando uma transição".
Sanções e gestos diplomáticos
Em abril, os EUA impuseram novas sanções a autoridades nicaraguenses, desta vez, visando dois dos filhos de Ortega e Murillo. Além disso, o Secretário de Estado americano, Marco Rubio, elevou o tom em relação a Manágua e condenou recentemente a declaração de Ortega de cancelar as eleições, mas até agora não chegou a propor uma mudança de regime, como fez explicitamente com Cuba.
Dias após a operação dos EUA na Venezuela, a Nicarágua anunciou medidas que foram interpretadas como gestos em direção a Washington. Libertou dezenas de prisioneiros depois que os EUA exigiram sua soltura e, posteriormente, restabeleceu a exigência de visto para cubanos, que limitava sua imigração para a América do Norte.
Thaler observou que Ortega e Murillo estão sempre prontos para negociar com os Estados Unidos, mesmo que não haja uma mesa de diálogo estabelecida. Sinais como a libertação de prisioneiros são "concessões superficiais para reduzir a pressão dos EUA sem ameaçar o poder deles, sem realmente ceder nada", enfatizou.
O papel de Rosario Murillo na sucessão
Ambos os analistas afirmaram que Murillo, que recebeu o título de copresidente em fevereiro de 2025, já está no comando. Essa também parece ser a posição do Departamento de Estado, que passou a citar o nome de Murillo antes do de Ortega em seus comunicados, um possível reconhecimento de sua crescente influência política.
"Historicamente, havia a percepção de que uma transição para Rosario provocaria rachaduras na Frente Sandinista. Isso ainda é possível, mas a Frente de hoje é muito diferente da de uma década atrás. Não se trata apenas de um partido personalista; isso também se deve a Rosario, que trabalhou para garantir que as pessoas em cargos de poder lhe sejam leais, e não apenas a Daniel", disse Thaler, afirmando que o casal presidencial mantém um controle rígido sobre as forças de segurança e os mecanismos de controle social.
No entanto, Orozco sugeriu que Murillo não possui uma base popular própria e continua a depender da imagem de Ortega.
O cenário político interno e a oposição fragmentada
O analista concluiu que eleições e democracia na Nicarágua estão "longe de serem possíveis neste momento" - especialmente sem uma oposição unificada. "Ela é muito fragmentada. Há pessoas como (o ativista e acadêmico) Félix Madariaga, que são muito proeminentes e continuam seus esforços para manter a causa nicaraguense presente no discurso dos EUA e do mundo, mas não há unidade, não há uma causa comum além do fim da ditadura", disse.
Embora parte da oposição espere uma possível divisão interna no governo, os analistas concordam que tal cenário é improvável. "Não parece haver alternativas dentro do regime ou grandes possibilidades de qualquer ruptura. Existe a possibilidade de outra sucessão familiar por um dos filhos, como Laureano, mas não há generais ou vice-presidentes" que possam surgir como uma possibilidade, disse Thaler.
"O cenário mais plausível é a continuidade do regime, com Rosario Murillo em uma posição mais forte do que nunca. Daniel (80 anos) está cada vez menos presente na vida pública. Rosario (74) é muito mais ativa na gestão do dia a dia. Há um papel maior na política para Laureano e para os filhos, mas, até agora, não há indícios de qualquer possibilidade de transição", reafirmou ele.
Perspectivas futuras para a Nicarágua
Com essa ressalva, Orozco disse que os Estados Unidos podem estar pensando a longo prazo, de olho nas eleições gerais que estão teoricamente marcadas para novembro de 2027 (caso Ortega não cumpra a ameaça de cancelá-las). "Eles estão planejando sincronizar a pressão para que algum tipo de reforma seja implementada", disse Orozco. "As sanções visam encurralar o regime. É provável que eles não percam a oportunidade de a Nicarágua passar por uma transformação democrática."
Enquanto isso, Thaler ressaltou que os EUA atualmente não estão dando muita atenção à Nicarágua e não espera que isso mude. "Há sanções contra autoridades do regime, mas é algo que acontece a cada três ou seis meses. Não é um sinal de atenção maior do que o habitual. É difícil imaginar uma mudança significativa na política dos EUA em relação à Nicarágua; atualmente, o país está em guerra com o Irã. Há uma campanha de pressão contra Cuba que não trouxe muitos resultados. Sem novos acontecimentos, não vejo uma grande mudança", disse ele.
Orozco afirmou que os Estados Unidos "têm desenvolvido uma série de pressões" por meio de sanções, às quais a Nicarágua raramente responde, em um padrão quase constante. "Uma leitura equivocada dá a impressão de que a Nicarágua vem depois da Venezuela e de Cuba, que a única política dos EUA é a intervenção direta. Não há nenhum cálculo sobre o que isso significa. Ninguém pensa no que significaria para os EUA remover essas pessoas do poder quando não há oposição, os cidadãos não sabem quem são os líderes no exílio e há estabilidade econômica. É especulação sobre algo incerto", afirmou.
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Perguntas Frequentes
Por que os EUA não intervêm diretamente na Nicarágua?
Washington teme que ações diretas provoquem ondas migratórias ou repressão interna, preferindo uma estratégia de pressão gradual com sanções direcionadas, segundo o analista Manuel Orozco.
Qual a diferença entre o regime nicaraguense e o venezuelano?
A Nicarágua não possui recursos naturais comparáveis aos da Venezuela e é governada por uma família sem sucessor claro, diferentemente do regime venezuelano, que tem Delcy Rodríguez como herdeira política.
Quem é Rosario Murillo e qual seu papel no governo?
Rosario Murillo é copresidente da Nicarágua desde fevereiro de 2025 e já está no comando do dia a dia, com influência crescente reconhecida até pelo Departamento de Estado dos EUA.
Há possibilidade de eleições na Nicarágua em 2027?
Teoricamente, as eleições gerais estão marcadas para novembro de 2027, mas Ortega já descartou a possibilidade de novas eleições, tornando o cenário democrático improvável no curto prazo.
O que são as sanções dos EUA contra a Nicarágua?
Em abril, os EUA impuseram novas sanções visando dois dos filhos de Ortega e Murillo, como parte de uma estratégia de pressão gradual sem intervenção direta.