Tarifaço: Ex-OMC vê "miopia" do Brasil e teme que eleição ofusque prejuízos
Ex-negociador da OMC vê "miopia" do Brasil ao subestimar os efeitos do tarifaço global e alerta que o calendário eleitoral de 2026 pode ofuscar os prejuízos reais para a indústria e o consumidor. A avaliação é de quem atuou por décadas nas regras do comércio internacional.
Tarifaço: Ex-OMC vê "miopia" do Brasil e teme que eleição ofusque prejuízos
Ex-negociador da Organização Mundial do Comércio (OMC) avalia que o Brasil reage com "miopia" diante do tarifaço global imposto pelos Estados Unidos, subestimando os impactos sobre exportações, inflação e emprego. A avaliação é de quem atuou por décadas nas regras do comércio internacional e agora vê o calendário eleitoral de 2026 como um risco adicional: a disputa política pode ofuscar os prejuízos reais e adiar medidas necessárias.
O alerta do ex-negociador da OMC
A crítica parte de um ex-funcionário de alto escalão da OMC, que prefere não ser identificado por ainda atuar como consultor de governos. Ele aponta que o Brasil trata o tarifaço como um "ruído passageiro", quando na verdade se trata de uma mudança estrutural no comércio global. "Há uma miopia em Brasília. Acham que o tarifaço é só uma briga entre EUA e China, mas o Brasil está no meio", disse, em condição de anonimato.
O ex-negociador lembra que, em 2018, quando os EUA impuseram tarifas sobre aço e alumínio, o Brasil conseguiu uma cota de exportação. Agora, porém, o cenário é mais amplo e atinge setores como carnes, suco de laranja, café e etanol. "Desta vez, não há escapatória fácil. O Brasil vai sentir no bolso", afirma.
Como o tarifaço atinge o Brasil
O tarifaço americano, anunciado em abril de 2025, impõe sobretaxas de 10% a 25% sobre uma cesta de produtos brasileiros. Segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), as exportações brasileiras para os EUA somaram US$ 37,2 bilhões em 2024, sendo que cerca de 60% desse total estão na mira das tarifas.
Os setores mais expostos são:
- Carnes (bovina, suína e de frango): US$ 4,8 bilhões exportados em 2024
- Suco de laranja: US$ 1,2 bilhão
- Café verde: US$ 1,1 bilhão
- Etanol: US$ 900 milhões
- Aço e alumínio: US$ 2,3 bilhões
"O Brasil não pode mais tratar isso como uma crise passageira. É uma reconfiguração das cadeias globais", alerta o ex-negociador.
O risco do calendário eleitoral
O ex-negociador da OMC teme que o calendário eleitoral de 2026 ofusque a gravidade do tarifaço. Com as campanhas começando oficialmente em agosto de 2025, o governo tende a priorizar medidas de curto prazo com apelo popular, em vez de negociações técnicas e de longo prazo na OMC.
"O que vejo é um governo que prefere anunciar subsídios e linhas de crédito para setores afetados, mas não enfrenta a raiz do problema: a falta de competitividade da indústria brasileira e a ausência de uma estratégia de comércio exterior de longo prazo", critica.
A avaliação é compartilhada por técnicos da Confederação Nacional da Indústria (CNI), que em nota técnica de maio de 2025 apontou que o tarifaço pode reduzir o PIB industrial brasileiro em até 0,8% em dois anos, caso não haja negociação.
O que o Brasil pode fazer
O ex-negociador sugere três frentes de ação imediata:
- Abrir um contencioso na OMC contra as tarifas unilaterais dos EUA, com base no princípio da nação mais favorecida
- Diversificar mercados, acelerando acordos com a União Europeia e a Ásia
- Reduzir custos internos (custo Brasil) para compensar a perda de competitividade externa
"O Brasil tem instrumentos. Falta vontade política. E com a eleição no horizonte, a tendência é empurrar com a barriga", conclui.
Perguntas Frequentes
O que é o tarifaço americano?
É a imposição de sobretaxas de 10% a 25% sobre produtos brasileiros, anunciada pelos EUA em abril de 2025, como parte de uma política protecionista.
Quais setores brasileiros são mais afetados?
Carnes, suco de laranja, café, etanol, aço e alumínio são os mais expostos, com impacto estimado em US$ 22 bilhões em exportações.
Como a eleição de 2026 pode influenciar a reação do Brasil?
O calendário eleitoral pode levar o governo a priorizar medidas de curto prazo com apelo popular, em vez de negociações técnicas de longo prazo na OMC.
O Brasil pode recorrer à OMC?
Sim. O país pode abrir um contencioso na OMC contra as tarifas unilaterais, com base no princípio da nação mais favorecida.
Qual o impacto do tarifaço no PIB brasileiro?
A CNI estima que o tarifaço pode reduzir o PIB industrial em até 0,8% em dois anos, caso não haja negociação.