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Tarifaço: Ex-OMC vê "miopia" do Brasil e teme que eleição ofusque prejuízos

ResumoEx-negociador da OMC alerta que o Brasil subestima os efeitos do tarifaço global, demonstrando "miopia" diante dos prejuízos para a indústria e o consumidor. O calendário eleitoral de 2026 pode ofuscar a real dimensão dos danos econômicos, segundo a avaliação de quem atuou por décadas nas regras do comércio internacional.

Ex-negociador da OMC vê "miopia" do Brasil ao subestimar os efeitos do tarifaço global e alerta que o calendário eleitoral de 2026 pode ofuscar os prejuízos reais para a indústria e o consumidor. A avaliação é de quem atuou por décadas nas regras do comércio internacional.

Pedro Henrique Salles
Pedro Henrique Salles Repórter de Trânsito e Infraestrutura · 16 de julho de 2026 · 4 min de leitura
Tarifaço: Ex-OMC vê "miopia" do Brasil e teme que eleição ofusque prejuízos

Tarifaço: Ex-OMC vê "miopia" do Brasil e teme que eleição ofusque prejuízos

Ex-negociador da Organização Mundial do Comércio (OMC) avalia que o Brasil reage com "miopia" diante do tarifaço global imposto pelos Estados Unidos, subestimando os impactos sobre exportações, inflação e emprego. A avaliação é de quem atuou por décadas nas regras do comércio internacional e agora vê o calendário eleitoral de 2026 como um risco adicional: a disputa política pode ofuscar os prejuízos reais e adiar medidas necessárias.

O alerta do ex-negociador da OMC

A crítica parte de um ex-funcionário de alto escalão da OMC, que prefere não ser identificado por ainda atuar como consultor de governos. Ele aponta que o Brasil trata o tarifaço como um "ruído passageiro", quando na verdade se trata de uma mudança estrutural no comércio global. "Há uma miopia em Brasília. Acham que o tarifaço é só uma briga entre EUA e China, mas o Brasil está no meio", disse, em condição de anonimato.

O ex-negociador lembra que, em 2018, quando os EUA impuseram tarifas sobre aço e alumínio, o Brasil conseguiu uma cota de exportação. Agora, porém, o cenário é mais amplo e atinge setores como carnes, suco de laranja, café e etanol. "Desta vez, não há escapatória fácil. O Brasil vai sentir no bolso", afirma.

Como o tarifaço atinge o Brasil

O tarifaço americano, anunciado em abril de 2025, impõe sobretaxas de 10% a 25% sobre uma cesta de produtos brasileiros. Segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), as exportações brasileiras para os EUA somaram US$ 37,2 bilhões em 2024, sendo que cerca de 60% desse total estão na mira das tarifas.

Os setores mais expostos são:

  • Carnes (bovina, suína e de frango): US$ 4,8 bilhões exportados em 2024
  • Suco de laranja: US$ 1,2 bilhão
  • Café verde: US$ 1,1 bilhão
  • Etanol: US$ 900 milhões
  • Aço e alumínio: US$ 2,3 bilhões

"O Brasil não pode mais tratar isso como uma crise passageira. É uma reconfiguração das cadeias globais", alerta o ex-negociador.

O risco do calendário eleitoral

O ex-negociador da OMC teme que o calendário eleitoral de 2026 ofusque a gravidade do tarifaço. Com as campanhas começando oficialmente em agosto de 2025, o governo tende a priorizar medidas de curto prazo com apelo popular, em vez de negociações técnicas e de longo prazo na OMC.

"O que vejo é um governo que prefere anunciar subsídios e linhas de crédito para setores afetados, mas não enfrenta a raiz do problema: a falta de competitividade da indústria brasileira e a ausência de uma estratégia de comércio exterior de longo prazo", critica.

A avaliação é compartilhada por técnicos da Confederação Nacional da Indústria (CNI), que em nota técnica de maio de 2025 apontou que o tarifaço pode reduzir o PIB industrial brasileiro em até 0,8% em dois anos, caso não haja negociação.

O que o Brasil pode fazer

O ex-negociador sugere três frentes de ação imediata:

  1. Abrir um contencioso na OMC contra as tarifas unilaterais dos EUA, com base no princípio da nação mais favorecida
  2. Diversificar mercados, acelerando acordos com a União Europeia e a Ásia
  3. Reduzir custos internos (custo Brasil) para compensar a perda de competitividade externa

"O Brasil tem instrumentos. Falta vontade política. E com a eleição no horizonte, a tendência é empurrar com a barriga", conclui.

Perguntas Frequentes

O que é o tarifaço americano?

É a imposição de sobretaxas de 10% a 25% sobre produtos brasileiros, anunciada pelos EUA em abril de 2025, como parte de uma política protecionista.

Quais setores brasileiros são mais afetados?

Carnes, suco de laranja, café, etanol, aço e alumínio são os mais expostos, com impacto estimado em US$ 22 bilhões em exportações.

Como a eleição de 2026 pode influenciar a reação do Brasil?

O calendário eleitoral pode levar o governo a priorizar medidas de curto prazo com apelo popular, em vez de negociações técnicas de longo prazo na OMC.

O Brasil pode recorrer à OMC?

Sim. O país pode abrir um contencioso na OMC contra as tarifas unilaterais, com base no princípio da nação mais favorecida.

Qual o impacto do tarifaço no PIB brasileiro?

A CNI estima que o tarifaço pode reduzir o PIB industrial em até 0,8% em dois anos, caso não haja negociação.

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