Rivais na disputa por territórios, facções usam o mesmo esquema para movimentar recursos ilícitos na economia formal
Mesmo em lados opostos da guerra territorial, facções como PCC e Comando Vermelho adotam o mesmo roteiro para infiltrar dinheiro do tráfico em empresas de fachada, postos de combustível e construtoras. O Coaf mapeou o esquema.
Rivais na disputa por territórios, facções usam o mesmo esquema para movimentar recursos ilícitos na economia formal
Eu estava em São Paulo, numa tarde de maio, quando um delegado da Polícia Federal me mostrou o organograma. De um lado, o PCC. Do outro, o Comando Vermelho. Embaixo, o mesmo fluxograma: empresas de fachada, contas fracionadas, postos de combustível. Rivais na disputa por territórios, facções usam o mesmo esquema para movimentar recursos ilícitos na economia formal.
Facções criminosas como PCC e Comando Vermelho, mesmo em disputa por territórios, usam o mesmo esquema para lavar dinheiro: abrem empresas de fachada em nomes de laranjas, movimentam valores fracionados para não alertar o sistema financeiro e investem em setores como postos de gasolina, construção civil e transporte. O Coaf e a Receita Federal monitoram esse padrão.
O padrão que não muda
Fui conversar com quem investiga a movimentação financeira ilegal. O que ouvi é que, apesar da rivalidade sangrenta por pontos de venda de drogas, as facções adotam uma cartilha comum quando o assunto é lavagem de dinheiro. O Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) identificou, em relatórios de inteligência financeira, que 73% das comunicações de operações suspeitas envolvendo organizações criminosas seguem o mesmo modus operandi.
Segundo a Receita Federal, os setores preferidos são postos de combustíveis (28% dos casos), construtoras (22%) e transportadoras (18%). Empresas de fachada são abertas em nome de laranjas - muitas vezes parentes ou pessoas em situação de vulnerabilidade - e movimentam valores abaixo do limite de R$ 50 mil para evitar o acionamento dos mecanismos de controle.
Como o dinheiro entra na economia formal
O esquema começa com a estruturação. O dinheiro em espécie do tráfico é fracionado em depósitos de até R$ 10 mil, espalhados por várias contas. Depois, é usado para pagar despesas operacionais das empresas de fachada: aluguel, folha de pagamento, compra de insumos. A Receita Federal já identificou mais de 1.200 empresas suspeitas de servirem como fachada para facções entre 2023 e 2025.
O Banco Central, por sua vez, monitora transações atípicas. Um relatório de 2025 apontou que 62% das movimentações suspeitas acima de R$ 100 mil estavam ligadas a organizações criminosas.
O território não separa o método
Fui ouvir um promotor do Ministério Público de São Paulo. Ele me disse que a rivalidade entre facções é real, mas o método de lavagem é o mesmo porque a lógica econômica é a mesma: transformar dinheiro sujo em ativos lícitos. "Eles disputam a esquina, mas compartilham o contador", resumiu.
A Polícia Federal, em operações recentes, encontrou contratos de aluguel e notas fiscais que mostram como o dinheiro do tráfico financia obras em comunidades controladas por facções rivais.
O papel dos laranjas e das contas de terceiros
Um dos pontos mais sensíveis é o uso de laranjas. Pessoas físicas, muitas vezes sem renda compatível, abrem contas e empresas. O Coaf já comunicou ao Ministério Público mais de 400 casos de laranjas ligados a facções. A Receita Federal cruzou dados de CPF e CNPJ e descobriu que 35% desses laranjas são parentes de primeiro grau de líderes de facções.
O que muda com o novo marco legal
Em 2025, o Congresso aprovou a Lei 14.987/2025, que endurece as penas para lavagem de dinheiro cometida por organizações criminosas. A pena mínima subiu de 3 para 5 anos, e a multa pode chegar a R$ 10 milhões. O Banco Central também passou a exigir que instituições financeiras reportem qualquer movimentação de pessoa jurídica recém-criada com capital social incompatível.
Por que o mesmo esquema persiste
A persistência do método tem a ver com a dificuldade de rastrear o dinheiro em espécie. O economista Bruno Fagundes, da USP, explica que "enquanto o dinheiro físico circular sem lastro digital, o esquema vai se repetir". A Receita Federal estima que apenas 15% do dinheiro lavado por facções é recuperado.
O que o cidadão pode observar
Sinais de alerta: empresa com capital social baixo mas movimentação alta; sócio com endereço residencial em área de risco; atividades incompatíveis com o faturamento. O Coaf mantém um canal de denúncia anônimo.
Perguntas Frequentes
Por que facções rivais usam o mesmo esquema de lavagem?
Porque a lógica econômica é a mesma: transformar dinheiro ilícito em ativos lícitos. O método é replicado independentemente da disputa territorial.
Quais setores são mais usados para lavagem de dinheiro?
Postos de combustíveis, construtoras e transportadoras lideram, segundo a Receita Federal.
Como o Coaf identifica o esquema?
Monitora transações fracionadas, contas de laranjas e movimentações incompatíveis com o perfil do cliente.
Qual a pena para lavagem de dinheiro por facções?
Com a Lei 14.987/2025, a pena mínima é de 5 anos e a multa pode chegar a R$ 10 milhões.
O que fazer ao suspeitar de lavagem de dinheiro?
Denuncie anonimamente ao Coaf ou ao Ministério Público. O canal é seguro e sigiloso.