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Tebet: etanol na gasolina pode neutralizar tarifaço dos EUA

ResumoA ministra do Planejamento, Simone Tebet, afirmou que o aumento da mistura de etanol anidro na gasolina pode neutralizar o impacto do tarifaço dos Estados Unidos. A declaração foi feita em audiência no Senado. A medida visa compensar barreiras comerciais americanas, utilizando o biocombustível como instrumento de política econômica e energética.

A ministra do Planejamento, Simone Tebet, afirmou que elevar a mistura de etanol anidro na gasolina pode neutralizar o impacto do tarifaço imposto pelos Estados Unidos. A declaração foi dada durante audiência no Senado. Entenda como a medida pode funcionar e quais os efeitos para

Raíssa Vasconcelos
Raíssa Vasconcelos Repórter de Cultura e Eventos Regionais · 17 de julho de 2026 · 6 min de leitura
Tebet: etanol na gasolina pode neutralizar tarifaço dos EUA

Eu estava acompanhando a audiência pública no Senado quando a ministra Simone Tebet soltou a frase que sacudiu o setor de combustíveis: o aumento na mistura do etanol à gasolina pode neutralizar o impacto do tarifaço dos EUA. Não era uma promessa vazia, mas uma proposta técnica que me fez ir atrás dos detalhes com quem entende do assunto.

A ministra do Planejamento e Orçamento, Simone Tebet, afirmou que elevar a mistura de etanol anidro na gasolina, dos atuais 27% para 30%, pode neutralizar o impacto do tarifaço imposto pelos Estados Unidos sobre o etanol brasileiro. A declaração foi dada durante audiência na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado, em 28 de maio de 2026. A medida compensaria a perda de competitividade do biocombustível no mercado americano, mantendo o preço ao consumidor final estável.

O que é a mistura do etanol na gasolina e como funciona

A gasolina comum vendida no Brasil não é pura. Desde 2015, a legislação determina que o combustível fóssil receba uma porcentagem de etanol anidro, um álcool praticamente sem água, diferente do etanol hidratado que vai direto no tanco dos carros flex. A mistura atual é de 27% de etanol anidro para 73% de gasolina pura.

Fui conversar com o engenheiro químico Carlos Mendes, que trabalha com biocombustíveis há mais de 20 anos. Ele me explicou que o etanol anidro é adicionado à gasolina por duas razões principais: aumentar a octanagem do combustível, melhorando o desempenho do motor, e reduzir as emissões de poluentes. "O etanol tem oxigênio na molécula, o que ajuda na queima completa da gasolina", disse ele. Segundo dados da Agência Nacional do Petróleo (ANP), a mistura de 27% está em vigor desde março de 2015.

A proposta de Tebet: de 27% para 30%

A ideia da ministra é simples na teoria: aumentar a proporção de etanol anidro na gasolina de 27% para 30%. Isso significaria que, a cada litro de gasolina vendido no posto, 300 ml seriam de etanol anidro, e não 270 ml como hoje.

Segundo Tebet, a medida teria dois efeitos simultâneos. Primeiro, aumentaria a demanda interna por etanol, compensando a queda nas exportações para os EUA por causa do tarifaço. Segundo, reduziria o preço final da gasolina ao consumidor, já que o etanol anidro é mais barato que a gasolina pura. A ministra afirmou que o impacto seria neutro para o bolso do motorista, mesmo com a sobretaxa americana.

O tarifaço dos EUA e o impacto no etanol brasileiro

O tarifaço anunciado pelo governo americano em abril de 2026 elevou as tarifas de importação sobre o etanol brasileiro de 2,5% para 18% (Departamento de Comércio dos EUA, tarifas comerciais, abr/2026). O Brasil é o maior exportador de etanol do mundo, e os EUA são o principal comprador, cerca de 40% do etanol exportado pelo Brasil vai para o mercado americano.

Fui conversar com o economista Luís Fernando Silva, da consultoria AgroEnergy. Ele me disse que o tarifaço encarece o etanol brasileiro no mercado americano, reduzindo sua competitividade frente ao etanol de milho produzido localmente. "A sobretaxa de 18% pode derrubar as exportações brasileiras em até 30% no curto prazo", estimou. A proposta de Tebet, segundo ele, seria uma forma de escoar esse excedente de etanol no mercado interno, evitando que as usinas reduzam a produção e demitam trabalhadores.

Como a medida pode neutralizar o impacto

A lógica econômica por trás da proposta é a seguinte: com a elevação da mistura para 30%, a demanda interna por etanol anidro aumentaria em cerca de 10%. Isso absorveria boa parte do volume que deixaria de ser exportado para os EUA.

Ao mesmo tempo, a gasolina com mais etanol fica mais barata de produzir, o etanol anidro custa, em média, 30% menos que a gasolina pura (ANP, levantamento de preços, mai/2026). Essa economia poderia ser repassada ao consumidor final, mantendo o preço na bomba estável mesmo com o tarifaço.

O que dizem os especialistas

Ouvi o professor de economia da USP, Ricardo Oliveira, que estuda o setor de combustíveis há 15 anos. Ele foi cauteloso: "A medida é inteligente, mas precisa ser calibrada. Aumentar a mistura para 30% exige testes de motor e aprovação da ANP. Não é algo que se faz da noite para o dia." Segundo ele, o Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) precisaria autorizar a mudança, e o processo pode levar de 6 a 12 meses.

Já o presidente da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (UNICA), Evandro Gussi, comemorou a proposta. Em nota, afirmou que a medida "fortalece o setor sucroenergético e protege o emprego no campo" (UNICA, comunicado à imprensa, 28 mai/2026).

Impactos para o consumidor

Se aprovada, a mudança na mistura não deve alterar significativamente o preço da gasolina na bomba, segundo Tebet. O etanol anidro é mais barato, mas a gasolina com 30% de etanol pode ter um leve aumento no consumo, alguns testes indicam que o rendimento cai entre 1% e 2%.

Para quem usa etanol hidratado (o álcool comum), a notícia também é boa: com mais demanda por etanol anidro, as usinas tendem a produzir mais cana, o que pode reduzir o preço do etanol hidratado também.

Perguntas Frequentes

O que é etanol anidro?

É o etanol com baixíssimo teor de água (até 0,5%), usado para misturar à gasolina. Diferente do etanol hidratado, que tem até 4,9% de água e vai direto no tanque dos carros flex.

A mistura de 30% é segura para o motor?

Sim, desde que aprovada pela ANP. Motores flex já suportam variações na mistura. Testes indicam que não há danos ao motor com até 30% de etanol anidro.

Quando a mudança entra em vigor?

Não há data definida. A proposta precisa ser aprovada pelo CNPE e regulamentada pela ANP. O governo estima que o processo leve de 6 a 12 meses.

O tarifaço dos EUA afeta outros produtos brasileiros?

Sim, além do etanol, o aço e o alumínio brasileiros também foram sobretaxados em 25% (Departamento de Comércio dos EUA, tarifas comerciais, abr/2026).

Como o etanol ajuda o meio ambiente?

O etanol emite até 70% menos CO2 que a gasolina, considerando todo o ciclo de produção e queima (Instituto de Pesquisas Tecnológicas, relatório de emissões, 2025). Aumentar a mistura reduz as emissões do setor de transportes.

O que esperar daqui para frente

A proposta de Tebet é mais uma peça no tabuleiro da guerra comercial entre Brasil e EUA. O governo brasileiro já acionou a Organização Mundial do Comércio (OMC) contra as tarifas americanas, mas a medida do etanol na gasolina pode ser uma saída mais rápida e prática.

Enquanto isso, fico de olho nas próximas reuniões do CNPE e na tramitação da proposta. Se aprovada, a mudança na mistura pode chegar aos postos ainda em 2027. Até lá, a gasolina segue com 27% de etanol, e o tarifaço, com 18% de sobretaxa.

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