# Etanol e açúcar: as justificativas dos EUA para tarifaço contra o Brasil

> O governo dos Estados Unidos justificou o tarifaço contra o Brasil citando barreiras ao etanol e ao açúcar brasileiros, além de acordos comerciais com México e Índia. Os EUA alegam desequilíbrio nas trocas bilaterais, enquanto o Brasil defende práticas comerciais justas. A medida pode elevar preços ao consumidor americano e afetar exportações brasileiras.

*Sucesso News · Eventos · 23 de julho de 2026 · Otávio Mancini*

O governo dos EUA citou etanol, açúcar e acordos comerciais com México e Índia como justificativas para o tarifaço contra o Brasil. Entenda os argumentos de cada lado e como isso pode afetar o consumidor.

## Etanol, açúcar e acordos comerciais: as justificativas dos EUA para o tarifaço contra o Brasil

O etanol voltou ao centro das discussões comerciais entre Brasil e Estados Unidos após o governo americano citar o tema entre as justificativas para a adoção de tarifas contra produtos brasileiros. Ambos os países são os dois maiores produtores de etanol do mundo. Há duas décadas, o produto é um dos principais temas das negociações comerciais entre os dois países.

## Por que o etanol está no centro da disputa?

Atualmente, o Brasil cobra uma tarifa de 18% sobre o etanol de milho importado dos EUA. Já os americanos aplicavam uma taxa de 12,5% sobre o etanol brasileiro antes do novo tarifaço. Segundo documento do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), o Brasil "interrompeu abruptamente o tratamento tarifário anteriormente equilibrado para o etanol" e não voltou a oferecer tratamento tarifário recíproco às exportações americanas.

A origem da atual política comercial remonta a 2010. Na época, o Brasil buscava ampliar o acesso do açúcar brasileiro ao mercado americano e decidiu reduzir de 20% para zero a tarifa de importação do etanol norte-americano. Com preços mais baixos e vantagens logísticas, especialmente nas regiões Norte e Nordeste, o etanol americano ampliou sua participação no mercado brasileiro.

Após pressão de produtores nacionais, principalmente do Nordeste, o Brasil mudou a política de importação. Em 2017, voltou a cobrar tarifa de 20%, mas criou uma cota de importação livre de impostos para os americanos. Desde o ano passado, o governo Donald Trump defende que o Brasil volte a conceder tratamento privilegiado ao etanol americano.

## O que o Brasil argumenta?

Um dos argumentos dos produtores brasileiros é que a expansão da produção nacional, especialmente do etanol de milho, reduziu a necessidade de importações dos Estados Unidos. O ex-diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC) Roberto Azevêdo afirma que o cenário mudou desde o período em que o comércio de etanol entre os dois países enfrentava menos restrições. "Há uma certa abundância do produto no mercado brasileiro e não há interesse em enfrentar uma tarifa adicional dos Estados Unidos, até porque a nossa participação no mercado americano é irrisória. Os EUA dizem que o nosso produto entra lá com uma taxa muito baixa, mas o problema nunca foi a tarifa de importação. São as barreiras técnicas e os subsídios dados ao produto americano", diz Azevêdo.

O vice-presidente Geraldo Alckmin afirmou que o Brasil só aceitaria discutir uma redução da tarifa sobre o etanol americano se o açúcar brasileiro também entrasse na negociação. Segundo ele, os dois produtos estão associados, já que o etanol também é produzido a partir da cana-de-açúcar. O argumento do governo brasileiro é que os Estados Unidos pedem mais acesso para o etanol americano no Brasil, mas mantêm limitações à entrada do açúcar brasileiro.

O mercado americano opera com cotas de importação de açúcar com tarifa reduzida. O Brasil, maior produtor mundial da commodity, pode exportar 155 mil toneladas por ano dentro desse sistema, volume considerado pequeno pelo governo brasileiro.

## E os acordos com México e Índia?

Outro argumento apresentado pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos é que o Brasil concede tratamento tarifário preferencial a centenas de produtos mexicanos, incluindo automóveis, e indianos, como produtos industriais. A Casa Branca argumenta que veículos americanos pagam mais impostos para entrar no Brasil do que veículos produzidos no México.

O governo brasileiro afirma que os acordos com Índia e México foram negociados por meio do Mercosul. Segundo a Vice-Presidência da República, esses acordos são amparados por mecanismos que permitem concessões comerciais entre países em desenvolvimento.

A Confederação Nacional da Indústria (CNI) afirma que a tarifa efetiva média aplicada a produtos americanos vendidos no Brasil é de 2,7% e que mais de 70% das exportações dos Estados Unidos para o país entram sem cobrança de tarifas. Segundo especialistas citados na reportagem, a tarifa média aplicada a produtos da Índia e do México é superior à cobrada dos EUA.

O advogado especializado em comércio internacional Welber Barral afirma que não seria possível estender automaticamente aos Estados Unidos os acordos comerciais firmados entre o Mercosul e Índia ou México. "No caso da Índia, a lista de preferências é muito pequena e tem pouco efeito. Já no caso do México, existe uma contrapartida que os norte-americanos não oferecem. Além disso, como o Brasil não tem acordo de livre comércio com os Estados Unidos, uma redução de tarifa poderia ser automaticamente estendida aos demais membros da OMC, inclusive à China", diz Barral.

## O que esperar das negociações?

Para Oliver Stuenkel, da Fundação Getulio Vargas (FGV), as discussões sobre etanol e açúcar também envolvem interesses econômicos internos nos Estados Unidos. "Qualquer tarifa produz uma reação interna e também protege determinadas indústrias. Então é sempre preciso avaliar qual é a organização e o impacto econômico para um determinado setor e avaliar qual é a influência política que esse setor tem em Washington. Mas, a princípio, é comum de novo que esse tipo de negociação acontece para chegar num compromisso, cedendo em uma área para tentar obter vantagens em outra área", diz Stuenkel.

O presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Ricardo Alban, defende a continuidade das negociações entre os dois países. "A questão é discutir açúcar e etanol de forma conjunta e avaliar que políticas convergentes Brasil e EUA podem adotar para estimular o consumo de etanol no mundo", diz Alban.

## Perguntas Frequentes

### O que os EUA querem com o tarifaço?

Os EUA querem que o Brasil reduza as tarifas sobre o etanol americano e ofereça tratamento tarifário similar ao concedido a México e Índia.

### O Brasil aceita negociar?

O governo brasileiro afirma que só aceita discutir tarifas do etanol se o açúcar brasileiro também tiver mais acesso ao mercado americano.

### Como isso afeta o consumidor brasileiro?

Se houver aumento de tarifas sobre produtos brasileiros, itens como suco de laranja, café e aço podem ficar mais caros nos EUA, impactando exportações e empregos no Brasil.

### O que é o USTR?

O Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos é o órgão do governo americano responsável por negociações comerciais internacionais.

### Qual a tarifa média que o Brasil cobra dos EUA?

Segundo a CNI, a tarifa efetiva média aplicada a produtos americanos é de 2,7%, e mais de 70% das exportações dos EUA ao Brasil entram sem tarifa.

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Fonte (canonical): https://sucessonews.com.br/eventos/etanol-acucar-acordos-comerciais-estao-entre-justificativas-eua-tarifaco-contra-/
