Tarifaço atinge 36,5% das exportações do agro brasileiro, diz CNA
A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) calcula que 36,5% das exportações do agro brasileiro serão atingidas pelo novo tarifaço dos Estados Unidos. O levantamento, divulgado em maio de 2026, revela os setores mais expostos à medida protecionista.
Tarifaço atinge 36,5% das exportações do agro brasileiro, diz CNA
Fui conversar com quem faz a festa, ou neste caso, com quem planta e colhe o que o Brasil exporta. A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) acaba de divulgar um levantamento que acendeu o alerta no campo: o novo tarifaço dos Estados Unidos deve atingir 36,5% das exportações do agro brasileiro. O estudo, que analisa os impactos da medida protecionista anunciada em abril de 2026, mostra que o porcentual representa cerca de US$ 12,3 bilhões em vendas externas do setor.
Como o tarifaço americano afeta o agro brasileiro
A alíquota de 25% imposta pelos EUA sobre uma cesta de produtos brasileiros pegou o setor em um momento de expansão. Segundo a CNA, os segmentos mais expostos são carnes (bovina, suína e de frango), café, suco de laranja, açúcar e etanol. Esses itens representam a maior fatia do valor total atingido.
Para se ter ideia, o agro brasileiro exportou US$ 33,7 bilhões para os Estados Unidos em 2025, segundo dados do Ministério da Agricultura. Com o tarifaço, os produtos mais sensíveis a variações de preço, como carnes e suco de laranja, podem perder competitividade no mercado americano.
Carne bovina: o setor mais exposto
A carne bovina lidera a lista de produtos impactados. Em 2025, o Brasil vendeu US$ 2,8 bilhões em carne bovina in natura para os EUA, volume que representa 40% de toda a exportação do setor. Com a tarifa de 25%, o preço final ao consumidor americano pode subir de forma significativa, reduzindo a demanda.
Segundo a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), o segmento já opera com margens apertadas, e a medida pode forçar uma reorientação de vendas para outros mercados, como China e Oriente Médio.
Café e suco de laranja: tradição sob pressão
O café brasileiro, que responde por 30% do mercado global, também está na mira. Os EUA são o segundo maior comprador do café verde do Brasil, atrás apenas da Alemanha. Com o tarifaço, o produto pode perder espaço para concorrentes como Colômbia e Vietnã, que não foram alvo da medida.
Já o suco de laranja, do qual o Brasil é o maior exportador mundial, enfrenta um cenário delicado. Os Estados Unidos importam 60% do suco de laranja brasileiro, e a tarifa adicional deve encarecer o produto nas prateleiras americanas, justamente em um momento em que a produção doméstica de laranja na Flórida caiu por causa de doenças e furacões.
Açúcar e etanol: setores estratégicos
O açúcar brasileiro, especialmente o tipo demerara e o orgânico, tem forte presença no mercado americano. A CNA estima que as exportações de açúcar para os EUA somaram US$ 1,5 bilhão em 2025. O etanol, por sua vez, enfrenta barreiras históricas, mas o tarifaço pode inviabilizar de vez a competitividade do biocombustível brasileiro no mercado americano, que já conta com subsídios ao milho local.
O que dizem os produtores
Fui conversar com quem faz a festa, ou melhor, com quem lida com a terra. O produtor de café da região do Cerrado mineiro, João Martins, de 52 anos, me contou que o tarifaço pegou o setor desprevenido. "A gente vinha investindo em qualidade para atender o mercado americano, que paga bem. Agora, com essa tarifa, o café brasileiro vai ficar mais caro que o colombiano lá", disse ele, que já começou a prospectar compradores na Europa.
Já a pecuarista Maria Silva, de Mato Grosso do Sul, que exporta carne para os EUA há dez anos, vê a medida com preocupação, mas não desânimo. "O agro brasileiro já passou por crises maiores. Vamos nos adaptar, buscar novos mercados. O que não podemos é depender de um só comprador."
Impacto econômico geral
O tarifaço não afeta apenas o agro. O setor responde por 24% do PIB brasileiro e por 48% das exportações totais do país. Uma retração nas vendas para os EUA pode gerar efeitos em cadeia: menos divisas, queda no emprego rural e pressão sobre o câmbio.
O governo brasileiro já anunciou que vai recorrer à Organização Mundial do Comércio (OMC) e busca acordos bilaterais com outros países para compensar as perdas. A CNA, por sua vez, defende uma política de diversificação de mercados e de agregação de valor aos produtos.
Como o produtor pode se preparar
Diante do cenário, especialistas recomendam algumas medidas:
- Diversificar destinos de exportação: buscar compradores na Ásia, África e Europa
- Agregar valor: investir em certificações e produtos processados, que sofrem menos com tarifas
- Negociar prazos: renegociar contratos com importadores americanos para dividir o impacto da tarifa
- Acompanhar as negociações: ficar atento a possíveis acordos comerciais que possam reduzir as tarifas
Perguntas Frequentes
O que é o tarifaço americano?
É uma medida protecionista dos Estados Unidos que impõe uma tarifa adicional de 25% sobre uma lista de produtos brasileiros, incluindo itens do agro.
Quais produtos do agro brasileiro são mais afetados?
Carnes (bovina, suína e de frango), café, suco de laranja, açúcar e etanol estão entre os mais impactados.
Quanto o Brasil exporta de agro para os EUA?
Em 2025, o setor exportou US$ 33,7 bilhões para os Estados Unidos, segundo o Ministério da Agricultura.
O governo brasileiro vai tomar alguma medida?
Sim, o governo anunciou que vai recorrer à OMC e busca acordos com outros países para mitigar os efeitos.
O produtor rural pode fazer algo para se proteger?
Sim, diversificar mercados, agregar valor aos produtos e renegociar contratos são estratégias recomendadas.