Mesmo sem assassinatos há um ano, ex-moradores resistem em voltar a vilarejo que teve saída em massa
Há um ano sem registros de assassinatos, um vilarejo no interior do Brasil ainda enfrenta resistência de ex-moradores para retornar. O êxodo em massa, motivado por onda de violência, deixou marcas profundas. Dados oficiais mostram queda nos crimes, mas a confiança não se recupero
Um ano sem assassinatos. A notícia poderia ser motivo de celebração em qualquer comunidade. Mas no vilarejo de Boa Esperança, no interior do Maranhão, o silêncio das armas não foi suficiente para trazer de volta os moradores que fugiram da violência. O êxodo em massa, ocorrido entre 2022 e 2023, reduziu a população local a menos de um terço do que era. E, mesmo com a trégua nos homicídios, a resistência ao retorno persiste.
O que explica essa desconfiança? Dados oficiais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam que a população do vilarejo caiu de 1.200 para 380 habitantes no período. A Secretaria de Segurança Pública do Maranhão confirma que não houve registro de homicídios nos últimos 12 meses. Mas a sensação de segurança, segundo relatos de ex-moradores, ainda não voltou.
A violência que expulsou
Entre 2020 e 2022, o vilarejo foi palco de uma disputa violenta entre facções criminosas pelo controle do tráfico de drogas na região. Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública indicam que, em 2022, a taxa de homicídios no município era de 45 por 100 mil habitantes, mais que o dobro da média nacional.
"A gente via barulho de tiro toda noite. Perdi um primo. Não dava para ficar", conta Maria dos Santos, 52, que se mudou para a cidade vizinha com os três filhos. O relato é comum entre os 820 ex-moradores que deixaram Boa Esperança.
A trégua que não convence
Em maio de 2025, a polícia realizou uma operação que prendeu os líderes das duas facções. Desde então, o vilarejo não registra assassinatos. A prefeitura local afirma ter investido R$ 2,3 milhões em iluminação pública e câmeras de vigilância.
Apesar disso, uma pesquisa informal da associação de moradores, realizada em abril de 2026, mostrou que 78% dos ex-moradores entrevistados disseram não pretender voltar. Os motivos: medo de represálias (43%), falta de emprego (28%) e infraestrutura precária (7%).
"A segurança melhorou, mas não tem escola, não tem posto de saúde. O que vou fazer lá?", questiona José Carlos, 45, que hoje trabalha como pedreiro em São Luís.
O que falta para o retorno?
Para a antropóloga Marina Oliveira, da Universidade Federal do Maranhão, a recuperação de uma comunidade após um trauma violento leva tempo. "Não basta reduzir os homicídios. É preciso reconstruir o tecido social, gerar renda, trazer serviços públicos. Sem isso, a volta não acontece", afirma.
A prefeitura anunciou um programa de incentivo ao retorno, com isenção de IPTU por dois anos e prioridade em programas habitacionais. Mas, até maio de 2026, apenas 12 famílias haviam retornado.
O que diz o poder público
Procurada, a Secretaria de Segurança Pública do Maranhão afirmou, por nota, que mantém rondas periódicas no vilarejo e que não há registros de ameaças a ex-moradores. A prefeitura, por sua vez, informou que estuda a instalação de uma escola municipal e de um posto de saúde, mas sem prazo definido.
A defensora pública estadual, Carla Mendes, que acompanha o caso, diz que muitos ex-moradores temem represálias judiciais. "Há pessoas que foram ameaçadas por facções e não confiam que a polícia possa protegê-las. O trauma é profundo."
Enquanto isso, Boa Esperança segue com ruas vazias e casas abandonadas. A paz voltou, mas a vida, ainda não.
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Perguntas Frequentes
Por que ex-moradores não voltam mesmo sem homicídios?
O trauma da violência passada, a falta de emprego e de serviços públicos básicos, como escola e posto de saúde, são os principais motivos.
Quantos homicídios havia antes da trégua?
Em 2022, a taxa de homicídios no município era de 45 por 100 mil habitantes, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
O que o poder público fez para estimular o retorno?
A prefeitura investiu R$ 2,3 milhões em iluminação e câmeras, e oferece isenção de IPTU por dois anos e prioridade em programas habitacionais.
Quantas famílias já voltaram?
Até maio de 2026, apenas 12 famílias haviam retornado ao vilarejo.
Há risco de nova onda de violência?
A Secretaria de Segurança afirma que não há registros de ameaças, mas ex-moradores temem represálias de facções que ainda atuam na região.