Houthis ameaçam rota do petróleo em meio a acordo EUA-Arábia Saudita
Os Houthis, grupo do Iêmen, ameaçam bloquear a rota do petróleo no Mar Vermelho, enquanto EUA e Arábia Saudita firmam acordo de energia nuclear. O cenário de tensão na região se agrava.
Os Houthis, grupo do Iêmen financiado pelo Irã, estão ameaçando bloquear uma das rotas mais estratégicas para o transporte mundial de petróleo. Embarcações com destino ao estreito de Bab al-Mandeb, no Mar Vermelho, estão dando meia-volta, conforme dados do setor marítimo. Essa situação eleva o nível de tensão no Oriente Médio, principalmente com o recente anúncio de um acordo entre os Estados Unidos e a Arábia Saudita para a geração de energia nuclear com duração de 30 anos.
As negociações sobre o acordo nuclear vêm sendo discutidas há anos, mas os termos atuais geram controvérsias e ceticismo, especialmente em relação às salvaguardas de segurança e à exigência de reconhecimento de Israel por parte dos sauditas. Quando questionado sobre a ameaça dos Houthis de bloquear a rota no Mar Vermelho, Donald Trump declarou não estar preocupado, afirmando que, caso o bloqueio se concretizasse, "a gente vai resolver", sem especificar como.
Mais tarde, Trump utilizou as redes sociais para alertar que qualquer ação dos Houthis seria considerada um ato praticado diretamente pelo Irã, adotando uma postura mais enérgica do que a inicialmente demonstrada.
Silvio Cascione, analista da consultoria Eurasia Group no Brasil, destacou que os Houthis possuem um grau de autonomia que os diferencia de outros grupos aliados de Teerã. "A gente não pode começar a análise pensando nos Houthis, qualquer ação que eles façam, qualquer declaração, como automaticamente, 100% teleguiada por Teerã", afirmou. Segundo ele, a ameaça atual é direcionada principalmente à Arábia Saudita, com o objetivo de pressionar Riad a garantir um apoio mais firme aos Houthis na disputa local no Iêmen, não necessariamente um bloqueio total do estreito a qualquer embarcação.
A Arábia Saudita, em resposta a essa pressão, tem redirecionado navios para a rota de circunavegação da África, uma alternativa que, embora viável, se revela significativamente mais cara e implica em maiores custos de seguro, combustível e tripulação. A expectativa da consultoria é que, após um período de tensão, haja um entendimento entre as partes que impeça o bloqueio efetivo da passagem. "A gente trabalha como cenário base com a manutenção da navegação pelo estreito de Bab Al-Mandeb", disse Cascione.
Entretanto, ele ressalta que uma escalada mais aguda do conflito entre Irã, Estados Unidos e Israel poderia levar os Houthis, a pedido de Teerã, a adotar medidas mais extremas. O governo dos Estados Unidos anunciou um acordo com a Arábia Saudita para a instalação de reatores nucleares e geração de energia, com vigência de 30 anos. Contudo, o tema gera debates, pois, segundo a correspondente Mariana Janjácomo, o anúncio não deixou claras as restrições aplicadas.
Suspeitas surgem de que as salvaguardas do chamado "padrão ouro", que envolvem inspeções regulares e a proibição de enriquecimento de urânio, poderiam ter sido afrouxadas para a Arábia Saudita. O analista Lourival Sant'Anna destacou que o acordo também possui um componente de política industrial, com o governo norte-americano interessado em anunciar ganhos econômicos bilionários. Ele ainda aponta que as salvaguardas contra a chamada "latência nuclear", que é a capacidade de um país desenvolver armamento nuclear a partir de um programa civil, foram retiradas do acordo.
"Essas salvaguardas foram retiradas desse acordo", afirmou Sant'Anna, que acrescentou que o anúncio gerou interesse imediato de países como Turquia e Egito, que passaram a reivindicar condições semelhantes, configurando o que ele classificou como o início de uma corrida nuclear na região.
Um dia após o anúncio do acordo, Trump acrescentou uma nova condição: a Arábia Saudita precisaria reconhecer Israel para que o pacto fosse aprovado. No entanto, essa exigência é considerada politicamente inviável no momento. Mohammed bin Salman já havia declarado que só reconheceria Israel mediante um caminho claro para o reconhecimento de um Estado palestino.
Sant'Anna avaliou que fazer um acordo com Israel neste contexto "derrubaria o reino ou pelo menos chacoalharia bastante o reino saudita", considerando o impacto dos conflitos em Gaza sobre a opinião pública árabe. Ele também observou que o cenário mais amplo revela duas estratégias distintas em confronto: enquanto o Irã adota uma "escalada horizontal", agregando novas frentes de pressão, os Estados Unidos respondem com uma "escalada vertical", intensificando o uso das mesmas capacidades militares.
Os bombardeios norte-americanos ao Irã nesta sexta-feira atingiram desde o sul até o norte do país, alcançando o Mar Cáspio. Porém, Sant'Anna conclui que se trata de "mais do mesmo", diante de um regime iraniano que demonstra alta tolerância à pressão externa e que, apesar de amplamente impopular internamente, mantém-se estável. "Dos dois lados não há respostas claras de como essa guerra poderia acabar", finalizou.