Formalismo jurídico protege o próprio sistema, diz Eduardo Giannetti
Giannetti afirma que tecnicalidades jurídicas protegem o sistema e agravam a desconfiança. Cita recuos da Lava Jato após anos de trabalho e decisões do STF.
O cientista social e economista Eduardo Giannetti afirmou que as tecnicalidades jurídicas e os formalismos do setor protegem o próprio sistema e podem agravar a falta de confiança da sociedade nas instituições. Em entrevista ao WW Especial, ele citou como exemplo recente a Operação Lava Jato, que, após anos de trabalho, sofreu recuos na condução das investigações.
"A gente teve no passado recente muito perto de uma melhora substantiva. Eu acreditei sinceramente que a Lava Jato mudava as regras de controle do setor público e do setor privado na vida brasileira", disse Giannetti. Ele lembrou que a operação "colocou gente de mais alto padrão econômico e financeiro na cadeia, com base em apuração, com base em delação premiada".
Ao longo dos últimos anos, o STF (Supremo Tribunal Federal) anulou uma série de condenações e determinações da operação. Entre os motivos estão um suposto "conluio" entre a PF (Polícia Federal), o MPF (Ministério Público Federal) e o então juiz Sérgio Moro; o entendimento de que a 13ª Vara Federal de Curitiba não tinha competência para julgar o caso; e a avaliação de que certas provas eram inutilizáveis.
"Um erro processual levou a um retrocesso de grandes proporções no momento em que tudo o que foi apurado e descoberto sobre a Lava Jato foi ignorado", explicou. "Nada daquilo valeu." O cientista social pontua que as anulações são incomuns no mundo jurídico internacional.
Em agosto, a justiça inglesa decidiu que uma agência local poderia continuar a usar provas e documentos da Operação Lava Jato para embasar confiscos de bens, mesmo depois das decisões do STF, no caso de Mario Ildeu de Miranda, um ex-executivo da Petrobras condenado em 2020 por lavagem de dinheiro pela 13ª Vara Federal de Curitiba. O juiz Mark Weekes levantou ressalvas sobre as medidas tomadas por Dias Toffoli, classificando-as como "altamente incomuns".
"Deve-se notar, de imediato, que a decisão do ministro Toffoli é uma decisão monocrática, isto é, proferida por um único ministro do STF, embora reconheçamos que ele é ex-presidente da Corte e, portanto, um jurista sênior e eminente naquele país. Dito isso, não se trata de uma decisão do que consideraríamos ser da corte completa do STF. Observamos também que a fundamentação da decisão é concisa", afirmou o magistrado.
"É o uso do formalismo jurídico para proteger o sistema", lamentou Giannetti. O programa, apresentado por William Waack, é exibido aos domingos, às 22h, em todas as plataformas da CNN Brasil.