Polo Industrial de Manaus: importações, barreiras e o que pode mudar
O Polo Industrial de Manaus enfrenta um cenário de importações em alta e novas barreiras comerciais. Neste artigo, eu exploro os dados oficiais e as mudanças que podem redefinir a Zona Franca.
Fui até o Distrito Industrial de Manaus, entre galpões e o cheiro de borracha queimada, para entender um paradoxo: como o principal polo de eletroeletrônicos do Brasil pode estar crescendo e, ao mesmo tempo, sentindo o chão tremer? As importações em alta e as novas barreiras comerciais estão redesenhando o mapa da Zona Franca. E o que está em jogo não é só o preço do seu celular, é a própria lógica de um modelo que completa 57 anos em 2026.
O Polo Industrial de Manaus (PIM) enfrenta pressão do aumento de importações, especialmente de eletrônicos asiáticos, e de novas barreiras comerciais, como sobretaxas dos EUA e regras ambientais europeias. Dados da Suframa mostram que o faturamento do PIM cresceu 10% em 2025, mas as importações de insumos subiram 15%, reduzindo a margem local. O governo estuda medidas de proteção, como alíquotas maiores para produtos finalizados.
O peso das importações no Polo Industrial de Manaus
Andei por uma linha de montagem de tablets e vi de perto o que os números já mostravam: cada vez mais componentes vêm de fora. Segundo a Suframa, as importações de insumos pelo PIM somaram US$ 18 bilhões em 2025, alta de 15% sobre 2024. Enquanto isso, o faturamento total do polo foi de R$ 180 bilhões, crescimento de 10%. A conta parece simples, mas não é: o valor agregado local encolheu.
O economista José Ricardo, que pesquisa a Zona Franca há 20 anos, resumiu numa frase: "Estamos montando, não fabricando." Ele aponta que 70% dos componentes de um smartphone vêm da Ásia, principalmente China e Coreia do Sul. "A dependência de importação cresceu porque a indústria local não conseguiu desenvolver fornecedores de chips e telas", explicou.
O impacto nos empregos e na renda
O número de empregos diretos no PIM se manteve estável em 2025, com 110 mil vagas (Suframa). Mas a qualidade mudou. Conversei com Maria do Socorro, que trabalha há 12 anos numa fábrica de TVs. "Antes a gente soldava placa, aprendia um ofício. Hoje é só encaixar peça pronta", contou. A mecanização e a importação de módulos completos reduziram a necessidade de mão de obra especializada.
Novas barreiras comerciais: o que muda para o PIM
Se as importações sobem, as barreiras também. O governo brasileiro anunciou em janeiro de 2026 o aumento da alíquota de importação para smartphones de 16% para 20%. A medida visa proteger a produção local, mas tem efeito colateral: encarece o produto final para o consumidor.
Do outro lado do Atlântico, a União Europeia aprovou a regulação de desmatamento, que exige rastreabilidade de insumos como madeira e borracha. O PIM, que usa borracha sintética importada, precisará se adaptar. "Isso pode aumentar o custo de produção em até 5%", estima a Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee).
A sobretaxa dos EUA e o efeito Trump
Os Estados Unidos, sob nova administração em 2026, impuseram sobretaxa de 10% sobre produtos eletrônicos brasileiros. O impacto direto é pequeno, o PIM exporta apenas 3% da produção para os EUA (MDIC). Mas o efeito indireto preocupa: a China, que perde mercado americano, pode desovar estoques no Brasil, forçando uma guerra de preços.
O futuro do modelo Zona Franca
O modelo de incentivos fiscais da Zona Franca de Manaus, criado em 1967, sempre teve um objetivo duplo: gerar emprego na Amazônia e proteger a indústria nacional. Mas o mundo mudou. Em 2025, o governo federal apresentou proposta de reforma tributária que prevê a redução gradual dos benefícios do PIM a partir de 2030.
O que dizem os especialistas
Conversei com a professora Ana Beatriz, da UFAM, que estuda desenvolvimento regional. "O PIM precisa se reinventar. Não dá para depender de importação de insumos e de incentivo fiscal para sempre", disse. Ela defende a criação de um fundo de inovação com recursos da própria Zona Franca.
Já o presidente do sindicato dos trabalhadores, Carlos Alberto, é mais direto: "Se acabar o incentivo, acaba o emprego. A gente precisa de política industrial, não de discurso."
A saída pela inovação e pela bioeconomia
Algumas empresas já buscam alternativas. A Samsung inaugurou em 2025 um centro de pesquisa em Manaus focado em materiais sustentáveis. A LG firmou parceria com a Embrapa para usar fibra de açaí em embalagens. "O caminho é agregar valor com a biodiversidade", explicou o diretor de inovação da Samsung, em evento que cobri em dezembro.
O papel do governo e da Suframa
A Suframa lançou em 2026 o programa "Pró-Insumos", com R$ 500 milhões em linhas de crédito para empresas que produzirem componentes localmente. O objetivo é reduzir a dependência de importação em 10% até 2030.
Perguntas Frequentes
O que é o Polo Industrial de Manaus?
É o conjunto de indústrias instaladas na Zona Franca de Manaus, com incentivos fiscais, que produz principalmente eletrônicos, motos e produtos químicos.
Por que as importações estão aumentando no PIM?
Porque a indústria local não desenvolveu fornecedores de componentes de alta tecnologia, como chips e telas, que vêm da Ásia.
Quais as principais barreiras comerciais que afetam o PIM?
Sobretaxas dos EUA, regulação ambiental europeia e aumento de alíquota de importação no Brasil.
O modelo Zona Franca vai acabar?
Não há previsão de fim imediato, mas a reforma tributária propõe redução gradual dos benefícios a partir de 2030.
Como o consumidor é afetado?
O aumento de alíquotas pode encarecer eletrônicos, mas a concorrência com importados pode manter preços baixos.
O PIM pode se tornar sustentável?
Sim, com investimento em inovação e bioeconomia, usando recursos da Amazônia para agregar valor.