# Análise: Vizinhos do Irã constroem alternativas após bloqueio em Ormuz

> O bloqueio no Estreito de Ormuz levou vizinhos do Irã a buscar alternativas para garantir o fluxo de energia. Descubra como essa dinâmica está mudando o mapa energético da região.

*Sucesso News · Cidade · 27 de julho de 2026 · Pedro Henrique Salles*

## Análise: Vizinhos do Irã constroem alternativas após bloqueio em Ormuz

As guerras frequentemente terminam em um lugar diferente de onde começaram. O conflito atual com o Irã tem sido marcado por objetivos mal definidos e variáveis, desde aspirações de mudança de regime até metas mais específicas de reduzir as capacidades nucleares e militares iranianas.

Após quase seis meses, a situação evoluiu para algo totalmente diferente: uma disputa sobre quem controla o Estreito de Ormuz e, com ele, uma das artérias mais importantes para a energia global. O Irã demonstrou tanto a capacidade quanto a disposição de atacar navios comerciais que transitam pelo estreito, a menos que a navegação ocorra sob as regras ditadas por Teerã.

Os EUA, e grande parte do mundo, incluindo todos os Estados do Golfo adjacentes ao estreito, consideraram isso, com razão, inaceitável. O objetivo estratégico agora concentra-se cada vez mais em uma única questão: o Estreito de Ormuz permanecerá uma via navegável internacional, ou o Irã adquirirá a capacidade de determinar quem passa por ele e sob quais condições?

Ceder o controle ao Irã proporcionaria ao regime dezenas de bilhões de dólares anuais em taxas de trânsito, além da capacidade de controlar o fluxo de energia para o restante do mundo. O Irã controlaria, na prática, o termostato da economia global.

O Irã não está bloqueando fisicamente o estreito. Ele está disparando drones e mísseis de cruzeiro contra navios civis. Isso é suficiente para paralisar o comércio e derrubar uma premissa de longa data: a de que o Estreito de Ormuz permaneceria uma rota internacional mesmo em períodos de conflito.

Durante a guerra de doze dias em junho de 2025, por exemplo, incluindo os ataques dos EUA às instalações nucleares iranianas, Ormuz permaneceu intocado. Essa premissa de longa data foi agora rompida, apresentando um desafio enorme para os EUA e para o mundo.

Uma experiência anterior pode ser relevante. Eu trabalhava na Casa Branca quando o grupo Houthi, um aliado do Irã, utilizou mísseis e drones iranianos para fechar o Mar Vermelho, empregando as mesmas táticas no Estreito de Bab Al-Mandeb. Os EUA formaram uma coalizão e lançaram uma campanha aérea para reduzir as capacidades dos Houthis, mas não conseguimos impedir todos os lançamentos nem restaurar a confiança das empresas de transporte comercial para realizar a travessia. Os Houthis só cessaram os disparos após chegarem a um acordo com Washington.

Hoje, os EUA enfrentarão o mesmo problema: uma missão demorada, cara e extremamente difícil de impedir que o Irã ataque com drones e mísseis de cruzeiro disparados a mais de 1.000 quilômetros de distância. É a clássica missão de procurar uma agulha no palheiro.

Só que este problema é muito pior. O estreito de Bab Al-Mandeb responde por 10% do transporte marítimo global. Isso é suficiente para elevar um pouco a inflação. O Estreito de Ormuz responde por 20% do comércio global de energia. Isso é suficiente, como disse o presidente Donald Trump antes de anunciar um acordo de curta duração com o Irã, para desencadear uma "catástrofe econômica".

A estratégia do Irã é elevar os preços da energia em nível global para pressionar a Casa Branca a ceder totalmente o controle do estreito. No entanto, suas táticas, com ataques a navios civis e ações por todo o Golfo, estão gerando uma reação de longo prazo que acabará jogando contra o próprio país.

Em todo o Oriente Médio, governos e empresas de energia estão acelerando a construção de oleodutos, portos e corredores de transporte projetados para movimentar petróleo, gás e mercadorias contornando Ormuz, em vez de passar por ele. Os EUA agora apoiam diretamente essas iniciativas.

O estreito continuará sendo importante. Mas, pela primeira vez em décadas, a região está investindo seriamente em um futuro no qual ele talvez não seja mais indispensável. O mapa energético do Oriente Médio está sendo redesenhado especificamente para reduzir o poder de influência do Irã sobre esse ponto de estrangulamento estratégico.

Vamos analisar os detalhes. Antes da guerra, cerca de 23 milhões de barris de produtos energéticos passavam diariamente pelo Estreito de Ormuz. Ele era o único ponto de gargalo para as exportações do Iraque, Kuwait, Catar e Bahrein, e a principal rota de trânsito para produtos da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos.

Agora, os governos estão planejando um futuro no qual Ormuz possa fechar periodicamente ou permanecer comercialmente pouco confiável. Isso muda a equação. Em vez de um único ponto de estrangulamento indispensável, os Estados estão investindo em um sistema de múltiplas rotas de exportação capazes de reduzir gradualmente a influência do Irã.

Esses projetos não substituirão todos os barris que transitavam por Ormuz antes da guerra, mas reduzirão significativamente a importância do estreito. O Goldman Sachs estimou recentemente que rotas alternativas, existentes ou novas, poderiam, até o final de 2028, transportar cerca de 60% do petróleo normalmente escoado pelo estreito.

Considere os seguintes projetos, para mudar este mapa, que estão sendo iniciados em decorrência da guerra: tudo isso é apenas o começo, à medida que esses e outros projetos para evitar a passagem por Ormuz saem do papel. A Arábia Saudita também discute uma rota ao norte para o escoamento de cargas até Aqaba ou, mais ao norte, através da Turquia, com destino ao Mediterrâneo.

Existe um precedente histórico importante. Após o colapso da União Soviética, os EUA propuseram um ambicioso projeto de oleoduto que atravessaria o Azerbaijão, a Geórgia e a Turquia até chegar ao Mediterrâneo. Conhecido como projeto BTC (Baku-Tbilisi-Ceyhan), ele exigiu bilhões de dólares em investimentos e anos de diplomacia americana constante ao longo de diferentes administrações.

Inicialmente, muitos especialistas descartaram o BTC, considerando-o ambicioso demais (estende-se por mais de 1.600 quilômetros), caro demais e politicamente inviável. A história provou o contrário.

Uma vez concluído em 2006, o BTC reduziu permanentemente a dependência de rotas de exportação controladas pela Rússia e demonstrou que a infraestrutura energética pode remodelar a política global tanto quanto as alianças militares. Em contrapartida, a Europa fez a escolha estratégica oposta, mantendo-se fortemente dependente da energia e dos gasodutos russos. Mais tarde, Moscou transformou essa dependência em uma ferramenta de pressão, uma lição que os Estados do Golfo parecem determinados a não repetir em relação ao Irã.

Essas novas redes de parcerias e oleodutos enfrentarão desafios e contratempos. O Irã pode atacar oleodutos fixos e atrasar a construção. Podem ocorrer atrasos nas obras, entraves burocráticos ou dificuldades de financiamento. No entanto, em conjunto, essas iniciativas revelam uma direção estratégica improvável de ser revertida.

As capitais do Oriente Médio, que antes presumiam que Ormuz permaneceria aberto e confiável, agora se preparam para a possibilidade de que isso não aconteça. Rotas de exportação resilientes e redundantes tornaram-se imperativos de segurança nacional, impulsionados por lideranças e fundos soberanos, com apoio e assistência dos EUA.

A estratégia do Irã depende, em última análise, da premissa de que o mundo não possui alternativa prática ao Estreito de Ormuz. O país pode acabar descobrindo que, ao transformar a passagem em uma arma, acabou convencendo seus vizinhos a construir uma região que não depende mais dela. Esse é um desfecho que Washington, e seus aliados, deveriam ajudar ativamente a concretizar.

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Fonte (canonical): https://sucessonews.com.br/cidade/analise-vizinhos-ira-constroem-alternativas-apos-bloqueio-ormuz/
