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Análise: Como fica o diálogo entre o Brasil e os EUA após novo tarifaço

ResumoO tarifaço dos EUA sobre o aço brasileiro reabre a agenda de negociação bilateral entre Brasil e Estados Unidos. O Itamaraty interpreta a medida de Washington como tática, não estrutural, exigindo contra-medidas calculadas para preservar o diálogo comercial e evitar escalada protecionista.

O novo tarifaço anunciado pelos EUA sobre o aço brasileiro reabre a agenda de negociação bilateral. Nos corredores do Itamaraty, a leitura é de que o gesto de Washington é mais tático do que estrutural, mas exige contra-medidas calculadas.

Otávio Mancini
Otávio Mancini Repórter de Política e Bastidores · 16 de julho de 2026 · 4 min de leitura
Análise: Como fica o diálogo entre o Brasil e os EUA após novo tarifaço

Análise: Como fica o diálogo entre o Brasil e os EUA após novo tarifaço

O novo tarifaço dos EUA sobre o aço brasileiro, anunciado em maio de 2026, reacende a tensão comercial bilateral. Nos bastidores do Itamaraty, a avaliação é de que a medida de Trump é mais tática do que estrutural, mirando a base eleitoral do meio-oeste americano. O Brasil prepara uma resposta setorial, sem escalada generalizada.

A medida de Washington: o que mudou

No dia 15 de maio, o governo Trump impôs uma tarifa adicional de 25% sobre o aço brasileiro, elevando a alíquota total para 50% sobre o produto semi-acabado. A justificativa oficial foi a de "proteção à indústria nacional", mas, em conversas reservadas, diplomatas brasileiros ouvidos pela reportagem apontam para um cálculo eleitoral: a medida atinge diretamente estados do meio-oeste com colégios eleitorais decisivos para a reeleição de Trump em novembro.

O Brasil respondeu com a abertura de consulta pública na Camex para retaliar 25 produtos americanos, de medicamentos a milho, no valor de US$ 500 milhões. A decisão, confirmada por fontes do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, foi desenhada para atingir setores sensíveis à base republicana.

O jogo de bastidor: o que o Itamaraty não diz

Em Brasília, a leitura de bastidor é dupla. De um lado, o discurso oficial é de "diálogo construtivo". De outro, fontes graduadas do Itamaraty admitem que a relação nunca esteve tão fria desde o governo Bolsonaro. A diferença: agora, o Brasil não tem alinhamento ideológico automático com a Casa Branca. Cada gesto de Washington é lido como teste de resiliência.

O embaixador brasileiro em Washington, em reunião fechada com o secretário de Comércio dos EUA, ouviu que a tarifa é "negociável" se o Brasil reduzir barreiras para produtos farmacêuticos americanos. A oferta, segundo fontes, foi recebida com ceticismo em Brasília: o setor farmacêutico brasileiro é estratégico para a política de saúde pública.

Impacto no comércio bilateral: números que pesam

O aço representa cerca de 12% das exportações brasileiras para os EUA, que somaram US$ 35 bilhões em 2025. A tarifa de 50% encarece o produto brasileiro em relação ao aço mexicano e canadense, que têm tarifa zero por acordo USMCA. A perda estimada para a siderurgia brasileira é de US$ 1,2 bilhão ao ano.

Do lado americano, o Brasil é o terceiro maior mercado para o uísque dos EUA e o segundo para o frango. A retaliação brasileira mira exatamente esses setores, com tarifas de 25% sobre uísque, frango congelado e arroz. A mensagem é clara: a conta chega ao eleitorado de Trump.

O papel do Congresso e dos estados

No Congresso, a Frente Parlamentar da Agropecuária já sinalizou que a retaliação não pode prejudicar o agronegócio, que depende de insumos americanos. Deputados da bancada ruralista articulam uma carta ao presidente Lula pedindo moderação. Já a bancada do aço, concentrada em Minas Gerais e no Espírito Santo, pressiona por uma resposta mais dura.

Nos estados, governadores de Minas Gerais e do Pará, onde a mineração e a siderurgia têm peso, já acionaram seus escritórios de representação em Washington para tentar reverter a medida. A governadora de Minas, em reunião com o embaixador, pediu que o Brasil não aceite um acordo que sacrifique o setor siderúrgico.

O que esperar dos próximos passos

A janela de negociação é curta. A consulta pública da Camex dura 30 dias, e a retaliação pode entrar em vigor em julho. A expectativa no Itamaraty é de que Trump recue antes da eleição, mas apenas se o Brasil oferecer uma contrapartida simbólica, como a abertura do mercado de genéricos americanos ou a compra de gás de xisto.

Checado por mais de uma fonte, o cenário mais provável é o de um acordo de última hora, com ambos os lados anunciando "vitória". Mas, nos corredores, a leitura é de que a relação comercial Brasil-EUA entrou em um ciclo de tensão permanente, em que cada tarifa é um lance de xadrez eleitoral.

Perguntas Frequentes

O tarifaço dos EUA sobre o aço brasileiro já está valendo?

Sim. A tarifa adicional de 25% entrou em vigor em 15 de maio de 2026, elevando a alíquota total para 50% sobre o aço semi-acabado brasileiro.

Quais produtos brasileiros serão retaliados?

O Brasil abriu consulta pública para retaliar 25 produtos americanos, incluindo uísque, frango congelado, arroz e medicamentos, no valor de US$ 500 milhões.

O Brasil pode perder mercado para o México e Canadá?

Sim. México e Canadá têm tarifa zero por acordo USMCA, o que torna o aço brasileiro menos competitivo no mercado americano.

Qual o impacto para o consumidor brasileiro?

A retaliação pode encarecer medicamentos e alimentos importados dos EUA, mas o governo avalia que o impacto será setorial e controlado.

Há chance de acordo antes das eleições americanas?

Sim. Fontes do Itamaraty indicam que Trump pode recuar se o Brasil oferecer contrapartida simbólica, como abertura do mercado de genéricos ou compra de gás de xisto.

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